Opinião
HIST�RIAS QUE A VIDA FAZ
A gente fica contaminado pelos noticiários que tratam da degradação política do País de tal forma que termina esquecendo-se das interessantes histórias da vida, coisa bonita para rebuscar e compartilhar. Era o ano de 1968 numa cultural cidade do interior quando um jovem adolescente no auge da empolgação, ingressando na idade adulta cumpria o dever cívico de prestar serviço militar. Diferentemente dos novos tempos, a molecada tinha orgulho em vestir aquele fardamento cáqui verde-oliva, aprender a respeitar seus superiores, disciplina, compromisso e responsabilidade. São atributos que se leva para o resto da vida, quer seja num quartel munido de toda a infraestrutura oferecida pelo exército nacional ou um simples ?Tiro-guerra? como são chamadas as unidades nas maiores cidades interioranas do Brasil. O certificado de reservista tinha valor da mais importante credencial do cidadão. O Sargento Perivaldo, responsável pela tropa, era admirado pelos superiores graças aos exemplos de dedicação na missão de formar novos recrutas e ao amor à instituição. Da capital, precisamente do quartel do 20º BC, denominação do batalhão do exército, chegava à informação de que a tropa do sargento receberia a visita do Capitão Julião para uma inspeção de rotina. Avaliar a performance dos soldados, o desempenho do instrutor, enfim, todos os procedimentos rotineiros seriam vistos pelo oficial. Perivaldo, perfeccionista e leal naquilo que fazia, exigiu da pequena tropa uniformes impecavelmente limpos e engomados, coturnos brilhando de graxa, ambiente higienizado, tudo perfeito, assim como ele sempre ensinou aos comandados. Logo nas primeiras horas da manhã chega o ?jipão? ostentando o brasão do Exército Brasileiro. Tropa rigorosamente perfilada, tudo pronto para receber o capitão. O Sargento Perivaldo, de tão ansioso para que tudo saísse perfeito, comete ele mesmo a primeira gafe. Presta continência ao cabo, motorista da viatura confundindo-o com o superior. Falha imperdoável nas normas militares! Como não reconhecer as três estrelas prateadas de um capitão? Passado o vexame, chega a hora do teste de condicionamento físico. Carrancudo, durão, esguio caprichosamente bem fardado, o Capitão Julião observa o movimento dos soldados, circulando entre eles com olhar ameaçador. Ao passar justo pelo líder do grupo, monitor que fazia o exercício chamado apoio, gritou: ?Tá enrolando, seu praça, faça esforço!? O soldado não estava fazendo corpo mole, mas a marca daquele lustrado coturno achacando-lhe as costas nunca saiu da sua memória. Quis o destino que, cinquenta anos depois, o recruta fosse abordado pelo capitão que sequer lembrava do episódio, claro: ?Você é aquele que escreve no jornal toda semana??, ?Sim?, respondeu o hoje velho sessentão. Cheio de orgulho continuou o militar aposentado: ?Eu e minha mulher somos leitores dos seus artigos. Seus textos falam tudo o que muitos gostariam dizer e não têm oportunidade?. Rolou um diálogo agradável. O capitão é um católico praticante que merece o respeito do menino soldado daquele tempo, sem mágoa, nem rancor, mas admiração pelo trabalho social que realiza na comunidade. A dor da sola do coturno nas suas costas não é nada considerando o prazer da conquista de tão importante leitor.