Opinião
ILHA DO FERRO: UM CASO DE AMOR COM O SERT�O ALAGOANO
Há alguns dias tive a oportunidade de passar um feriado prolongado no sertão. O destino foi a Ilha do Ferro, povoado do município de Pão de Açúcar, localizado à beira do Rio São Francisco, numa parte tão estreita que ao olhar diretamente para a outra margem do rio mais parece um lindo e calmo lago. Transmite paz, sensação de acolhimento, pertencimento, os pés fincam raízes naquele solo e parece que nos carrega para uma viagem ao passado, com suas casinha antigas, fachadas coloridas e paisagem que hipnotiza. O lugar é idílico, um paraíso. Mas não só! A Ilha, que na verdade fica no continente, é um bálsamo de prosperidade, causa sensações. Por lá não se vê miséria, nem miseráveis. São artistas: bordadeiras, escultores e muito mais. Artesãos. Gente diferente, com sotaque próprio, consciência sobre si mesmos e autoestima elevada. Pessoas que comem e compartilham o que plantam, que recebem ?forasteiros? de braços ? e lares ? abertos. Segundo dizem ? e parece que há mesmo documentação que comprova ? a Ilha data ainda do século XVII, da época da chegada dos europeus por essas bandas. Há, inclusive, uma construção que pode ter sido da época. A cidade é pitoresca. São cerca de 400 habitantes, um minúsculo povoado. Descoberto por intelectuais apaixonados por cultura popular há quase 50 anos. Um lugar que clama por preservação e respeito, onde habitam pessoas simples que lutam por dias melhores através do colorido da arte. Primeiro, as bordadeiras conquistaram os exploradores modernos. Ainda na década de 1990, a então primeira dama Ruth Cardoso estimulou a criação de uma cooperativa de rendeiras, que até hoje ainda administram o fundo criado pela antropóloga. Este incentivo pode ter sido o principal passo dado para que o bordado Boa Noite, trabalho único no Brasil fosse resgatado, preservado e hoje ensinado para as novas gerações. Quase esquecido, esse bordado foi aperfeiçoado e atualizado quanto aos tamanhos e funções, incorporando influências da vida moderna. Agora apresenta-se em novos aspectos, como: Boa Noite Simples, Boa Noite de Flor, Boa Noite Cheio. Sempre preocupando-se com a qualidade do trabalho e do tecido, priorizando o linho e a cambraia de linho. Tudo muito lindo, muito precioso e delicado. Enquanto isso, os homens voltavam-se para a agricultura e a pesca. A prosperidade das rendeiras da Ilha parece ter provocado nos homens o interesse pelo artesanato através das esculturas em madeira. Agora o lugar é um oásis de artistas, de pessoas leves, satisfeitas, cujo trabalho está sendo pouco a pouco reconhecido. A Ilha recebe gente do mundo todo. Brasileiros estão descobrindo e se encantando pelo local com sensibilidade e dedicação. Encampando lutas pela preservação do lugarejo e conscientização dos moradores para a defesa do lugar. Tive a oportunidade de conhecer alguns deles, e quem mais me encantou foi Luca. Ele é tão peculiar quanto o local. Mais parece um ermitão, vive na Ilha há 12 anos. Há 12 anos Luca se dedica a criar um ?jardim botânico? sertanejo, plantando e preservando espécies nativas do árido solo do sertão, numa área à beira do rio, cheia de rochas. É um sonhador, uma pessoa de uma sensibilidade incrível, que vê em cada planta um ser vivo que alimenta a alma e mantêm os humanos vivos. Sem dúvidas, o ponto alto da estada na Ilha do Ferro foi o passeio pela mata que ele tenta preservar, guiados pelo próprio Luca. Passeio este que não está à disposição de qualquer forasteiro, poucos são agraciados por sua companhia e a narração de sua história. Mandacarus, umbuzeiros, mulungus, barrigudas, xiquexiques, algumas delas ameaçadas de extinção, compõem o ambiente, junto com as rochas e todo aquele inesperado verde, nutrido pela estação chuvosa que neste ano tem abençoado o sertão. Mesmo depois de tudo isso, minha experiência na Ilha não foi só isso. Há muito mais a contar. Personagens interessantes que se fundiram ao local. Como a particularidade de cada artista, desde os mais generosos e receptivos até os mais famosos. Gente que está se adaptando às oportunidades que têm surgido com simplicidade e honra, com orgulho e amor próprio, sem servilismo ou submissão. O que deveria ser comum, mas que nos encanta pelo diferencial, por serem especialmente únicos.