Opinião
Fome e fartura
O alerta foi dado no início desta semana pela FAO, órgão das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação: pela primeira vez em 25 anos, a fome aumenta no mundo e reverte um processo que em um quarto de século havia dado sinais claros de melhoria para a população de diversos continentes. Segundo a entidade, 60% dos que enfrentam a fome hoje estão em países afetados por conflitos ou mudanças climáticas. Num total, 19 países vivem uma situação considerada como crítica, seja por guerras, secas ou enchentes. No total, apenas na Nigéria, Somália, Sudão do Sul e Iêmen, 20 milhões de pessoas extras estariam passando fome em comparação a dados de 2015. Há dois anos, um total de 795 milhões de pessoas pelo mundo eram afetados pela fome, 216 milhões a menos que em 1990. A má nutrição nos países mais pobres caiu de 23,3% para 12,9% em 25 anos, num avanço inédito na história contemporânea. O fato é que, ainda que o combate à fome tenha ganhado força nas últimas décadas, essa conquista vem sendo ameaçada pelas guerras civis, atos de terrorismo, deslocamentos forçados e também e pelas mudanças climáticas. Um estudo publicado pela própria FAO no ano passado mostrou que a produção mundial de alimentos é suficiente para suprir a demanda dos 7,3 bilhões de pessoas que habitam a Terra. Novas técnicas agrícolas, aplicação da tecnologia e ampliação das áreas plantadas garantiram fartura dos campos. Apesar disso, aproximadamente uma em cada nove dessas pessoas ainda vive a realidade da fome. Ironicamente, milhões de pessoas no mundo sofrem de excesso de peso. Cerca de 300 milhões são clinicamente obesas e, a cada ano, morrem 2,6 milhões de pessoas por excesso de peso ou por obesidade. Em grande parte, essa distorção é proveniente da forma como se produzem, distribuem e consomem os alimentos. Concentração da renda e da produção, falta de vontade política e até mesmo desinformação e consolidação de uma cultura alimentar pouco nutritiva são fatores que compõe o cenário da fome e desnutrição no planeta. Para a FAO, não basta apenas um compromisso político para erradicar a fome, mas é preciso que a comunidade internacional transforme suas promessas em ações. Como o papa Francisco afirmou, a fome não é natural, mas causada pela indiferença de muitos ou o egoísmo de uns poucos.