Opinião
Distor��o
Entre os dados do Cadastro Central de Empresas, divulgado ontem pelo IBGE, chama a atenção o fato de que, em 2015, as trabalhadoras brasileiras ganhavam 23,6% menos que os trabalhadores. Considerando o universo de pessoas ocupadas assalariadas, os homens receberam em média R$ 2.708,22 e as mulheres R$ 2.191,59. Ou seja, persiste no mercado de trabalho brasileiro uma distorção que discrimina o trabalho feminino. De acordo com o IBGE, em cinco anos, entre 2010 e 2015, o percentual de mulheres ocupadas assalariadas aumentou 1,9 ponto percentual. A maior participação feminina nesse período estava na administração pública e nas entidades sem fins lucrativos. Neste último ambiente, por exemplo, a participação das mulheres passou de 53,3% para 55,8% e a dos homens caiu de 46,7% par 44,2%, no período. O Cadastro revela ainda que, nas entidades empresariais, embora os homens sejam maioria, a diferença entre o número de pessoal ocupado do sexo masculino e feminino vem caindo de 2010 para cá. No período, a diferença diminuiu 5,2 pontos percentuais. Os números batem com outros levantamentos. Uma pesquisa salarial feita pela empresa Catho ? que avaliou oito funções, de estagiários a gerentes ? apontou que mulheres ganham menos do que os homens em todos os cargos. A maior diferença é no cargo de consultor, no qual os homens ganham 62,5% a mais do que as mulheres. Convém ressaltar que essas disparidades não são exclusivas do mercado de trabalho brasileiro e ocorrem em várias áreas, mesmo com o avanço da participação feminina. Em 2015, por exemplo, ao receber o Oscar de melhor atriz coadjuvante, Patricia Arquette usou o discurso de agradecimento para reclamar da diferença entre os cachês pagos atores e atrizes. A herança cultural machista e a entrada tardia das mulheres no mercado de trabalho, que passaram a buscar condições igualitárias a partir das décadas de 1960 e 1970, estão entre os fatores que ajudam a explicar essa desigualdade salarial. A boa notícia é que o mercado está em evolução e diversas companhias passaram a acompanhar o movimento da importância da igualdade entre gêneros. Mesmo assim, é um processo que ainda vai levar um bom tempo até que essa distorção seja finalmente superada.