Opinião
A GAROTA DE ONTEM ENVELHECEU
A garota de ontem envelheceu. O tempo passou e ela não contabilizou rugas! Sua fortaleza interior jamais a deixou baquear, mesmo quando o futuro lhe pareceu negro e injusto. Fizera tudo de acordo com o um código moral e educação rígidos. Acontece que a sorte é determinada por Deus e os tempos mudaram. De muita coisa lamenta. Uma delas foi não transgredir regras. Haja arrependimento! Jovens não se dão conta de que o tempo passa rápido demais, então adia planos sem pensar que o melhor é correr atrás dos sonhos possíveis. A garota não foi para o Rio de Janeiro estudar Moda, uma das suas inclinações. Porque o pai não deixou. Ao casar, a mulher submetia-se às decisões do marido. Isto ocorria nos anos da ditadura militar. Casada, não houve chance de realizar a antiga aspiração. Formada no magistério, materializara um sonho da avó. Detestou, chegando a dar um cascudo num aluno insubordinado. Fez vestibular de Direito para realizar uma aspiração do pai. Nada a ver com aquela garota cheia de sonhos e vocação para a moda. Formada, foi para o sertão viajando com o marido num jeep velho, arranjar clientes no Fórum ou nas feiras livres. Comeu muita galinha de capoeira, ganhou dúzias de ovos, peru, feijão de corda, abóboras e melancias. Como pagamento pelos serviços advocatícios. Na verdade ela gostava mesmo era de ganhar o dinheiro das questões finalizadas. Sua juventude clamava por distrações que cidade do interior não propiciava. E o tempo passando... Os filhos crescendo dentro das aperturas financeiras do casal. Certo dia, antes de o almoço ser servido em casa dessa advogada, rico empresário, ao observar de perto, as dificuldades daqueles amigos em educar os filhos fora do Estado, falou uma verdade que ela nunca esqueceu: ?Olhe Zaida, é melhor administrar dificuldades, do que facilidades! Você é que está certa! Veja só o meu caso. Facilitei e me dei mal...? Dessa educação espartana nunca houve arrependimentos. Dela surgiram bons frutos. Hoje, em Brasília, os filhos, todos, veem, de longe, visitar a mãe, apesar de ela já se considerar fora do perigo que a ameaçava. Dão toda a assistência e atenção possíveis. Um deles matriculou-a num curso de Desenho de Moda. E por morar aqui, leva-a três vezes por semana, às aulas que a transportam para o mundo da criação, revelando o talento da família Cavalcanti Lins. Portanto, nunca é tarde para se realizar um sonho. Mesmo na casa dos setenta...