Opinião
Obst�culos
Reportagem especial publicada na edição deste fim de semana da Gazeta mostra a triste realidade de crianças e adolescentes que, apesar de estarem aptos para adoção, dificilmente encontrarão um novo lar, pois apresentam algum tipo de deficiência ou doença crônica, ou ainda estão fora da faixa etária desejada pelas famílias interessadas. Trata-se de uma situação que não é exclusiva de Alagoas. O Cadastro Nacional de Adoção (CNA), do Conselho Nacional de Justiça, tem cerca de 5 mil crianças cadastradas para adoção no País. São os casos em que os pais biológicos perderam definitivamente o poder familiar. Ao mesmo tempo, há mais de 37 mil pessoas na lista de espera para adotar. Em termos matemáticos, isso significa que para cada menor disponível para adoção há quase oito famílias pretendentes. Essa fila de espera, entretanto, dificilmente será zerada. Na avaliação do próprio CNJ, há uma discrepância entre o perfil da maioria das crianças do cadastro e o perfil de filho, ou filha, imaginado pelos que aguardam na fila da adoção. A análise dos perfis do CNA indica que é falsa a crença comum de que o maior obstáculo às adoções no Brasil é a questão racial. Cerca de um terço (32,36%) dos pretendentes só aceita crianças brancas, que representam exatamente três em cada dez das cadastradas. A dificuldade maior está na questão etária. Apenas um em cada quatro pretendentes (25,63%) admite adotar crianças com quatro anos ou mais, enquanto apenas 4,1% dos que estão no cadastro do CNJ à espera de uma família têm menos de 4 anos. Outro fator que dificulta a saída de crianças e adolescentes dos abrigos é a baixa disposição dos pretendentes para adotar mais de uma criança ao mesmo tempo, ou para receber irmãos. O processo de adoção requer tempo, paciência e esforço. São muitos documentos e muitas entrevistas com assistentes sociais, o que pode desanimar algumas famílias. Embora alguns procedimentos extremamente burocráticos pudessem ser abolidos, não há como simplificar demais, pois se trata de uma questão muito séria. Ao mesmo tempo, é preciso que se façam mais campanhas de estímulo à adoção, para que mais famílias se sintam chamadas a dar um lar e um novo futuro a tantas crianças e adolescentes já marcados pela exclusão.