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Opinião

O FILHO DE JOAQUIM

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Vinte de julho é uma data especial para milhares de nordestinos religiosos de fé inabalável atravessando gerações pelo homem, o ?santo?, o inesquecível Padre Cícero. Já se vão 83 anos que Juazeiro do Norte acordou chorando a morte do seu fundador e líder espiritual. Uma longa, controversa e inconclusiva história. Para o povo humilde, nos anos de 1844 até 1934 e nos tempos atuais em pleno século XXI, ele foi a reencarnação de Cristo que ouvia, curava, perdoava e fazia milagres. Cícero Romão Batista, o ?Padim Ciço?, filho do pequeno comerciante Joaquim Romão Batista e Joaquina Vicência Romana, durante os seus noventa anos de existência, viveu uma vida atribulada entre a cruz e a espada, amor e ódio. Venerado por multidões de devotos fanáticos e contestado por outros tantos que o consideravam impostor. Recebeu da Igreja Católica que o fez padre uma perseguição implacável por se revelar desobediente aos princípios canônicos ditados pela Santa Sé. Sua devoção no exercício do sacerdócio, principalmente no campo da pastoral, não foi suficiente para agradar aos superiores. Justo quando a Diocese de Fortaleza àquela época tinha dificuldades em controlar a promiscuidade do clero onde até padres amancebados tinham filhos, atitude pecaminosa incompatível com o voto de celibato obrigatório para exercer o sacerdócio. Nos anos de 1890, o sangue produzido pela beata Maria Araújo foi o estopim que deu início a toda a trajetória de atribulações durante a vida conflituosa de Cícero com a igreja de Roma, até o veredicto final dos inquisidores no Vaticano. Atribuía-se à beata um milagre todas as vezes que ela recebia a hóstia consagrada das mãos do sacerdote. Da sua boca escorria sangue em proporções anormais, fenômeno que se repetiu por mais de dois anos espalhando-se pelo Nordeste como sendo o sangue de Cristo. Em Juazeiro estavam acontecendo milagres! Então começaram as romarias para nunca pararem mais de um século e meio depois. Comissões foram formadas por padres e profissionais de saúde e até mesmo pela Diocese liderada pelo Bispo D. Joaquim José e nenhuma explicação natural surgiu para o estranho sangramento. De forma radical, bem ao seu estilo e contrariando os apelos vindos do Vaticano para não pregar o fenômeno da beata como milagre, não foi aceito pelo padre. A longa história continuou até definitivamente ser excomungado pelo Papa Leão XIII acatando decisão dos membros da Congregação do Santo Ofício. Com fama e popularidade, amado e idolatrado, apesar de sofrido pela decisão de Roma, Cícero abraçou um novo destino: a política. Aliado a lideranças do Cariri, contam historiadores que encarnou um poderoso coronel proprietário de muitas terras cercando-se de capangas ao apoiar lutas armadas em 1914 entre oligarquias e o governo federal. Foi o primeiro Prefeito de Juazeiro e ainda Vice-governador do Ceará. Tinha estreita relação com Lampião para quem forneceu armas para que seu bando atacasse Luiz Carlos Prestes, compromisso não cumprido pelo cangaceiro. Santo ou coronel? Só a igreja católica um dia decidirá.

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