Opinião
O DESPERTAR DA SOLIDARIEDADE
Outro dia, como de costume, acordei muito cedo. Ainda era noite, mas meu coração não somente sorria, como se encontrava repleto das estrelas iluminadoras do percurso a ser percorrido na orla de Maceió. Ao sair de casa, contemplei a natureza verificando a chuva forte a chegar de mansinho. Mesmo assim, encontrei coragem e iniciei a jornada anteriormente planejada. O calçadão da Jatiúca estava deserto, pois, exceto alguns obstinados, como eu, pretendiam cumprir à risca a planilha de exercícios estabelecida pelo especialista monitorador de nossos treinamentos. Ali, correndo e navegando em meus pensamentos, imaginei o Pai Maior escrevendo o certo, em linhas nem sempre retilíneas, como é o caso de usar-se a raiva para compreendermos o valor da paz, o tédio para mostrar a importância da aventura, a solidão valorizadora da convivência, principalmente fazendo escancarar a pobreza, para pensarmos no amor e respeito ao próximo. Tudo isso pensei ao verificar as inúmeras pessoas pernoitando ao relento, mesmo nas noites molhadas e frias dos dias atuais, protegidas apenas por plásticos pretos ou caixas de papelão, deitadas debaixo dos beirais das barracas da orla, tão procuradas nos dias ensolarados, quando emprestam beleza e alegria a nosso litoral. Seguindo minha corrida solo, continuei me deparando com aquelas cenas, tão comuns quanto tristes e constrangedoras, repetidas, inúmeras vezes durante o percurso. Confesso haver experimentado a sensação de medo e susto, procurando evitar contatos, temeroso de alguma agressão. Os raios do sol lutavam contra as nuvens, querendo desnudar o arrebol. Os pingos d?água caídos do céu faziam arder a face, enquanto o atlântico parecia roncar, debatendo-se contra a areia da praia, onde alguns urubus se banqueteavam com o encontrado nas línguas negras, tão degradantes ao meio ambiente, ansioso, em vão, por algum socorro. Em determinado momento, fitei os olhos de uma criança tentando proteger-se do molhado. Vi, claramente, sua forte vontade de chorar, bem como de me dizer o quanto vivia uma permanente dor, um vazio impossível de preencher porque, apesar do muito grande frio, todas as pessoas o olhavam parecendo querer fechar-lhe a porta. Convenci-me, então, de como é triste viver a esmo, sem família, sozinho e esquecido, quase sempre sendo tratado como se fizesse parte do lixo, sem ter para onde voltar, quando o crepúsculo chega e as sombras se agigantam favorecendo uma nova noite, geralmente gélida, perigosa e escura. Meu percurso, praticamente, já fora cumprido: dez quilômetros de corrida e meditação, quando o mais entristecedor fora imaginar como é constrangedor deitar o corpo sobre a calçada, ou sobre um banco de praça, sem cobertor e, muitas vezes, ?protegido? apenas por velhos papéis, tendo a solidão como única companheira.