Opinião
Distor��es
O governo federal anunciou, há poucos dias, a implementação de um Plano de Desligamento Voluntário. O objetivo é diminuir gastos com a folha de pagamento. De acordo com o Ministério do Planejamento, apenas o PDV deve gerar uma economia de cerca de R$ 1 bilhão por ano. Só em Alagoas há 7.600 funcionários em condições de aderir ao programa, como mostra reportagem da Gazeta na edição deste final de semana. No Brasil, o serviço público não goza de uma reputação muito boa, pois é visto como uma máquina administrativa inchada, excessivamente burocrática e ineficiente. Do mesmo modo, há também uma visão negativa em relação àqueles que trabalham em órgãos e empresas estatais. A cada 100 trabalhadores brasileiros, 12 são servidores públicos. A média é a mesma verificada nos demais países da América Latina, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Já nos países mais desenvolvidos, o percentual costuma ser quase o dobro. Apenas no âmbito federal, o Brasil conta com 2,2 milhões de funcionários, 250 mil a mais que há dez anos. Apesar de os números absolutos impressionarem, para especialistas os dados provam que, na comparação com os outros países, a quantidade não pode ser considerada exorbitante, tendo vista a dimensão territorial e a população do Brasil. O que preocupa os especialistas é a desigualdade na distribuição dos servidores em cada área. O problema, portanto, não é quantitativo, mas qualitativo. Enquanto sobram funcionários em certas áreas, como no Legislativo, faltam em serviços básicos, como saúde e educação. Outro problema é que, em muitos órgãos, a administração pública não se modernizou. Falta atualização das ferramentas, uma reforma administrativa que possa melhorar a qualidade dos serviços prestados. Finalmente, há a distorção salarial. Segundo dados do Planejamento, cada servidor do Judiciário custa, em média, R$ 123 mil por ano, enquanto o gasto anual com um funcionário do Executivo é de R$ 42,7 mil. No Legislativo, o valor chega a R$ 153 mil por ano. Há, portanto, um temor justificável de que o PDV contribua ainda mais para a precarização do serviço público e acabe desfalcando setores que já enfrentam carência de pessoal. O governo, entretanto, parece focar apenas na questão econômica.