Opinião
QUERERES
Careço de um pouco de solidão. De fugir correndo do celular que nunca desliga, das mensagens virtuais que nunca param de chegar, dos vídeos que avançam madrugada adentro, como se todo mundo vivesse numa permanente conectividade que não deixa espaço em nós para o silêncio e para a quietude. Quero refletir mais e reagir menos, aspiro diminuir o barulho em meu derredor e principalmente dentro de mim, escutar somente a brisa serena que sussurra em meu ouvido como um mimo do céu. Desejo parar sem ser incomodado, sem que me obriguem a caminhar quando os meus pés cansados só pedem para ficar descalços, na frieza acolhedora de um chão de terra batida. Não me interessam os brados dos brigões, nem a falácia dos poderosos que se julgam senhores de vida e de morte. Que cada um fique com os seus tesouros, o seu saldo sempre crescente de conquistas e de vitórias. Para mim, se me for dado merecê-los, que sobrem sorrisos sinceros e abraços afetuosos, mãos amigas a me conduzirem num entardecer à beira-mar, lábios amorosos que osculem o meu rosto com carícias de bem-querer. À balbúrdia das multidões fatigadas em busca de ouro e prata, prefiro a calma serena de quem deixa escorrer entre os seus dedos um punhado de areia colhido à beira do caminho; em vez de um trono ricamente ornado, basta-me uma pedra na margem de um rio, flores do campo atraindo borboletas e árvores frondosas abrigando o canto dos sanhaços e dos bem-te-vis. Discursos vazios já não atraem a minha atenção, palavras sem alma já não fazem eco em meu interior; melhor é ouvir uma criança cantarolando pela ruazinha calma, um cão amigo latindo com alegria ao som dos nossos passos, um velho repentista fazendo versos e rimas com saudades, ternuras e adeuses. Nas vastidões do meu eu, um menino espia, quieto e mudo, o mundo que passa à sua frente. Nem sempre consegue compreendê-lo, muitas vezes lhe faltam palavras para traduzi-lo. E o menino, conversando sozinho consigo mesmo, como sempre fez desde tempos imemoriais, olha e vê coisas que cada vez mais o surpreendem. E às vezes ri, e às vezes chora, mas nunca deixa de se encantar com os mistérios da vida e do viver. Busca enxergar a essência das coisas, dos seres, dos sentimentos que se aninham em seu velho coração que ainda teima em andar no compasso dos sonhos que não soçobraram aos muitos vendavais da existência. Há muito deixou de querer ter. Aspira somente ser e, sendo, afugentar os seus fantasmas e pacificar os seus temores.