Opinião
MAQUIAVEL � INOCENTE
A votação e rejeição da denúncia da PGR contra Temer, independentemente, do seu significado na estabilidade do País e no curso dos trâmites das reformas, transcorreu obedecendo as mesmas regras instituídas ao longo da história política nacional: o uso do poder e do cofre para conseguir obter a vitória, no caso, a permanência de Temer na presidência. Nada de novo, portanto, nesse lastimável cenário. Muitos dirão que mais uma vez foi sob a inspiração de Maquiavel que a velha política nacional atuou. Mas é preciso situar melhor o filósofo em seu contexto histórico: ardia a Renascença, período no qual a Itália conhecia um formidável crescimento cultural e econômico, por outro lado fragilizava-se do ponto de vista político e militar. A Bota era palco de querelas intestinas e não conseguia unificar-se como um Estado soberano. Diante daquela Itália despedaçada, em múltiplos e concomitantes conflitos bélicos, Maquiavel almejou fundar um Estado único e forte. A autoridade política não mais se fundamentaria na religião ? conforme preconizava Santo Agostinho ?, ela seria autônoma, e a religião passou a ser meio a serviço da política. A virtú (virtude) em política não teria conotação moral. Seria a capacidade do político de impor a sua vontade. Ele deveria se preocupar apenas em estabelecer a ordem e estabilizar o poder no seio do Estado. A política estaria, nitidamente, separada da moral. O fim justificaria os meios para Maquiavel, mas ali estava em jogo a união da Itália, então dividida em múltiplos pedaços. Fazer política deveria pressupor a maldade dos homens, porque o homem pode ser mau, falso, e mentiroso e privilegiar apenas seu interesse particular. A prova estaria no fato de que as leis não bastariam para governa-los. Contudo, rejeitava a tirania e considerava a liberdade como o ideal da política. Realçava a insuficiência da razão e da lei nesse combate: a impossibilidade de governar humanamente por causa da maldade e animalidade humanas. Porém, ele deveria parecer justo e humano a fim de poder manipular os homens. Destacava a insuficiência da força bruta que apenas gera violência e pode ser fragilizada. Precursor em centenas de anos de muitos outros grandes pensadores que desnudaram a alma humana, Maquiavel provavelmente teria grandes dificuldades para aceitar o jogo da política nacional como uma decorrência natural de seus postulados. O contexto político e geográfico de sua época na Itália eram outros e justificavam sua tese. O que não ocorre no Brasil e na América Latina, onde o jogo é sempre brutal e abertamente amoral e aético, independente de como esteja a situação.