Opinião
PELO CENTRO
Ando pelo calçadão da Rua do Comércio, a caminho de uma audiência, e me dou conta do quanto mudou a paisagem do Centro desde quando vim morar em Maceió, em 1985. Desapareceram pontos que eram referências do traçado urbano de então. As Lojas Brasileiras, Lobrás, com a sua variedade de produtos e marcas. O Cine São Luiz, onde eu assistia aos filmes dos Trapalhões assim que entravam em cartaz. A Casa do Colegial, que todo começo de ano fornecia os itens da minha vida escolar. O Bar do Chope, em cujas mesas muitas vezes eu vi o poeta Manoel Cícero do Nascimento conversando animadamente com o ex-prefeito Sandoval Caju. Miss Paripueira andava rua acima e rua abaixo, com seus óculos escuros, seus colares e suas pulseiras, e se alguém gritasse ?Sabiá!? ela gritava de volta os palavrões mais cabeludos. Mais adiante, o velho Fórum que abrigava o Tribunal do Júri, no qual o meu saudoso professor Antônio Aleixo Paes de Albuquerque fazia ecoar o brilhantismo da sua oratória vibrante. A Casa Nossa Senhora dos Prazeres, com Seu Tenório, educado e atencioso, vendendo as imagens sacras que ornamentavam os lares católicos. A Funerária Arestor Marques, com Seu Hugo Menezes preparando dignamente as exéquias dos mais abastados. O cursinho de português e redação da professora Osmandina Acioli, minha conterrânea muriciense, responsável pela aprovação no vestibular de diversas gerações. As óticas Flamengo e Fluminense, disputando entre si a preferência dos fregueses. A Drogaria São Luiz rivalizando com a Droganorte, ambas ofertando descontos e promoções. A Livraria Caetés, na Cincinato Pinto, responsável por plantar em mim o vício incurável da leitura, e ao seu lado a Shups, com um sorvete de milho verde que era irresistível. A Pizzaria Sorriso, na esquina da Praça Sinimbu, destino certo da minha turma de colégio nos fins de semana. E a Macarronada do Edson, na Praça da Faculdade, que matava a nossa fome a preços módicos. Algumas poucas coisas continuam as mesmas. O ceguinho de voz afinada ainda toca o seu pandeiro defronte à Igreja do Livramento, sem que até hoje eu saiba o seu nome. A sorveteria Gut-Gut permanece aliviando o calor de quem passa pela Praça Deodoro. Os prédios públicos ocupam o mesmo lugar de antes ? Tribunal de Justiça, Câmara de Vereadores, Teatro Deodoro, Assembleia Legislativa, Palácio do Governo. Entre o que deixou de existir e o que teima em não desaparecer, vê-se a vida que escorre por entre as brechas do tempo, deixando marcas na cidade que abriga o nosso eterno caminhar.