Opinião
Aos idosos, com carinho
JOSÉ MEDEIROS * Não sei se já contei uma história poética que tem sido transmitida de geração em geração, cujo título é ?Doação?. Não se conhece o autor, a origem e o ano em que foi publicada. Faz parte da crônica oral das famílias, contou-me minha mãe. Decorei-a, e anos mais tarde ensinei às minhas filhas, mantendo a tradição. É uma historieta cheia de simbolismo, emoção e sentimento. Vamos conhecê-la. ?Amigo, faze o bem, esse prazer compensa a maior recompensa. Aqueles frutos saborosos que o teu vizinho colhe, às vezes, a cantar, custaram, com certeza, o trabalho de alguém que já sabia que nunca em sua vida os colheria, mas nem por isso deixou de plantar?. Transferida essa imagem para o ?pomar? da existência humana, trata-se, sem dúvida, de um trabalho de doação, um ato de amor e de espiritualidade. A palavra doar significa transmitir alguma coisa gratuitamente à outra pessoa, mas tem um sentido infinitivamente mais amplo: o de dedicar-se a alguém, devotar-se, consagrar-se a um ideal. Muitos se doam ao participar de movimentos religiosos e sociais. Outros, como um ato pessoal de compreensão da pessoa humana, de amor e de solidariedade. A Campanha da Fraternidade 2003 chama a atenção para um tipo especial de doação: devotamento aos idosos, milhares deles abandonados à própria sorte, cheios de sofrimentos físicos e espirituais. O tema: ?A fraternidade e as pessoas idosas ? vida, dignidade e esperança? é um convite à reflexão. Recentemente, um articulista lembrou que muitas pessoas agem como se fossem imortais, esquecidas de que a partir do momento da concepção descarta-se, dia-a-dia, uma promissória cuja data se vencerá mais adiante. Existem os que têm a felicidade de envelhecer no conforto da família, queridos pelos filhos, netos e amigos. Entretanto, são muitos os que sobrevivem a duras penas, com irrisórias aposentadorias, ou nenhuma fonte de renda, em precárias condições de assistência médica, de alimentação e de moradia. Nos consultórios médicos costuma-se dizer que aos 60 anos os pacientes tomam um medicamento diário, aos 65, dois, aos 70, três ou mais remédios; imaginem as dificuldades dos idosos de baixa renda. Em Maceió, uma experiência recente: estudantes da Escola Monteiro Lobato fizeram uma visita ao Abrigo Noturno São Vicente de Paula, levando doações recolhidas em campanha escolar. O abrigo é uma instituição bem organizada, limpa, cuidada e dirigida por Irmãs da Caridade. Vive de contribuições humanitárias e trata bem dos velhinhos. Um dos internados desse asilo contou uma história dramática. Era pescador. Durante toda a vida alimentou sua família com os peixes que fisgava no Rio São Francisco. A partir do momento em que ficou sem condições de trabalhar foi sendo excluído gradualmente da mesa e das conversas. Anos depois, mandaram-no embora por falta de ?espaço? na casa. Um fato desolador, uma tragédia familiar e social. É necessário valorizar a solidariedade, o carinho, o amor e os laços de amizade que continuam sendo uma regra nas famílias. Esse carinho é o oxigênio que mantém a vida dos idosos. (*) É MÉDICO E EX-SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO E DE SAÚDE