Opinião
Fome, fartura e desperd�cio
Na edição deste fim de semana, a Gazeta trouxe como principal reportagem o aumento do número de miseráveis que perambulam pelas ruas de Maceió. A questão foi comentada neste espaço, que também discorreu sobre estudo do Banco Mundial também sobre o aumento do número de pessoas vivendo na pobreza no Brasil por causa da crise econômica. Em 2014, o Brasil celebrou sua remoção do mapa da fome das Nações Unidas, mas agora caminha tristemente para ser reintegrado. O paradoxo dessa situação é que o Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas tem um grave problema de desperdício, que ocorre ao longo de toda a cadeia produtiva, da produção agrícola ou pecuária até o consumo final. O problema não é só brasileiro. Segundo a FAO, órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, o mundo perde ou desperdiça entre um quarto e um terço dos alimentos produzidos anualmente. O volume equivale a cerca de 1,3 bilhão de toneladas de alimentos. No caso do Brasil, o mais grave é que o País ainda não tem uma política nacional que regule iniciativas de combate ao desperdício de alimentos e defina o destino de sobras do processo de produção, comercialização e consumo. A maioria dos projetos que tramitam no Congresso pretende acabar com a punição civil e criminal de doadores de alimentos. Por incrível que pareça, supermercados, restaurantes e empresas processadoras ou distribuidoras de alimentos geralmente jogam no lixo as sobras ainda próprias para consumo. Não se trata, porém, de insensibilidade. O problema é que essas empresas podem ser responsabilizadas caso doem algum produto e este cause mal-estar ou problema de saúde à pessoa que recebeu. Trata-se de uma legislação que vai no sentido do desperdício, porque impede o reaproveitamento. Estudo feito pela consultoria legislativa do Senado Federal mostra que o risco jurídico imposto aos doadores é um dos principais gargalos da legislação relacionada a iniciativas de promoção da segurança alimentar, ao lado das ineficiências técnicas de todas as etapas do processo produtivo. Para os especialistas, o problema do desperdício não será resolvido com aumento da produção de alimentos, nem com políticas punitivas. Eles defendem mais campanhas educativas e debate sobre mudanças culturais e de comportamento.