Opinião
MESTRE AURÉLIO, MESTRE GRAÇA E DEMÓCRITO
Outro dia, passeando em companhia de meus pensamentos, recordei-me dos tempos de estudante quando, em sala de aula no Colégio Marista, convivi com o professor de História Sebastião Vilas Boas. Uma de suas tarefas prediletas era delegar a cada aluno a responsabilidade de percorrer a cidade, escolher um nome de rua e discorrer sobre o mesmo, tanto por escrito quanto oralmente. Eu saia por aí, registrando as placas fixadas nas esquinas das vias publica, cadastrando as alcunhas ali vistas, para, depois, comparecer ao centenário prédio do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, pesquisando sobre Melo Povoas, Pedro Monteiro, Moreira e Silva, Fernandes Lima, Gonçalves Ledo e tantos outros. Aos poucos, entendi o quanto aquelas figuras, perpetuadas no bronze, de alguma forma não somente entraram e saíram da vida de seus semelhantes, como, acima de tudo, deixaram pegadas sólidas no seio de uma geração. Os tempos passaram, e hoje entendo haver sido aquela atividade, um dia considerada enfadonha, algo de extrema valia, inclusive para minha própria cidadania por ser, o passado, não somente o esteio do presente, mas os pilares de sustentação do porvir. Hoje, com extrema admiração, verifico ser o Brasil, onde vivemos, extremamente negligente no cultivo de ícones, exceto quando estes são jogadores de futebol, cantores ou artistas de TV. As pessoas parecem, na atualidade, somente pontificarem quando possuem qualidades negativas, levando-nos, por mais que se busque, a dificilmente encontrar um ídolo capaz de merecer aplausos. É como se cada homem, sem o sentir, carregasse o próprio peso, não suportando qualquer outro corpo a se mover, e também não notando os próprios defeitos, mas, somente os dos outros. Ainda em minhas conjecturas, lembrei, com alegria, da homenagem prestada a três grandes cidadãos tão dignificantes de Alagoas, cujas estátuas foram fixadas na orla de Maceió: Aurélio Buarque de Holanda, Graciliano Ramos e Demócrito Gracindo, restando-nos, contudo, a certeza de, em suas épocas, estas figuras públicas, haverem sido criticadas pelos contemporâneos. Seus sucessos posteriores na vida, deixam claro: por mais que nos coloquemos a julgar nossa época, nunca será de forma tão retilínea quanto o ensinado pela história. Que bom seria se os homens olhassem seus semelhantes, não com olhos de interesse e ou egoísmo, mas, sim, pelas virtudes possuídas. Certamente, então, de repente, o mundo seria bem melhor, porque, sobrenomes importantes teriam as mesmas chances e oportunidades de edificar quanto os simplesmente conhecidos como Maria, João ou José... Só assim a montanha onde muitas autoridades de hoje fazem o seu esconderijo de águia, não passaria de refúgio de toupeiras ante o resplandecente ninho de quantos possuem capacidade.