Opinião
Integridade violada
Dados do Ministério da Saúde referentes a 2016 mostram que, a cada duas horas e meia, uma mulher sofreu estupro coletivo em algum lugar do Brasil. Foram 3.526 casos registrados no ano passado pelas unidades de saúde de todo o País, uma alta de 12,5% em relação aos 3.132 de 2015. Na comparação com 2011, o aumento foi de 124%. Em Alagoas, os números oficiais são de três estupros coletivos por mês. Foi a primeira vez que se captou o crescimento desse tipo de crime no Brasil. Antes, violência sexual praticada por mais de um agressor era contabilizada junto com outros casos de estupro. Desde 2011, entretanto, tornou-se obrigatória a notificação por parte de serviços de saúde, públicos ou privados, como hospitais. Os dados do MS correspondem às vítimas que buscaram atendimento em hospitais públicos ou privados ? mesmo que elas não tenham registrado um boletim de ocorrência. É possível, porém, que esses números estejam defasados. Apesar de os crimes de violência sexual terem se tornado de notificação obrigatória, um estudo feito pelo Ipea mostra que apenas 10% dos estupros são notificados. Nem todas as vítimas procuram as unidades de saúde ou a polícia, seja por medo de sofrer represálias, seja por vergonha. Para especialistas, o problema é nacional, ainda que cada lugar tem características culturais próprias. Não deixa de ser preocupante o fato de que, de acordo com pesquisa do Ipea, um em cada três brasileiros acham que a culpa do estupro é da vítima. Outro levantamento do Ipea, feito com base nos dados de 2011 do Ministério da Saúde, mostrou que 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes e 24,1% dos agressores são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. Em geral, também segundo o Ipea, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência, muitas vezes, ocorre dentro dos lares. Os números do Ministério da Saúde reforçam a presença de uma cultura da violência sexual no Brasil. Além da punição aos responsáveis, é preciso que a sociedade se mantenha mobilizada para combater esse mal e estimular uma mudança de mentalidade.