Opinião
VISITA INDESEJÁVEL
Contam os mais velhos que a melhor das crendices para expurgar o desconforto de uma visita indesejável em casa é colocar por trás da porta uma vassoura na posição contrária. Qual dos contemporâneos dos anos 60/70 ainda meninos e adolescentes não ouviu essa mesmice dita por avós e pais algumas dezenas de vezes? Pelo sim, pelo não, nada custa testar a veracidade da superstição na hora inoportuna daquela visitinha desagradável, não é? Comum a prática, principalmente no interior, quando inesperadamente chega uma figura bisbilhoteira, invejosa, conversadeira até umas horas, destilando energia negativa por todos os lados. Basta atravessar a porta de entrada e seus olhos ardis já fulminam os ambientes da casa. Ah, se não tiver alguns pés de arruda para absorver a força do mau olhado, o restante das plantas no jardim murcha instantaneamente até secarem de morte. Aboletada no sofá da sala, já começa falando do vizinho, do filho dos outros, de doença na família, da última viagem que fez para um lugar qualquer. Só conta vantagem e se autoelogia valorizando tudo o que lhe pertence como melhor que dos outros. Esses embrulhos mal-acabados também perseguem a sociedade nos espaços públicos onde as comunidades não gostariam de encontrá-los pela inconveniência das presenças cínicas, claramente demagógicas, comuns na política. Candidatos invadem ruas, cidades e municípios sem pedir licença ao povo para ao menos terem a certeza se serão bem-vindos ou simplesmente ignorados pelos habitantes do lugar. Andam cercados de puxa-sacos, seguranças e a tradicional galera remunerada com sanduba de mortadela e trinta reais para tremular a bandeira de campanha. São velhos conhecidos pelo passado nada recomendável, robustos gabirus, ilusionistas encantadores da triste pobreza que, infelizmente, persiste no Brasil. Se não tem panelas para bater protestando contra os ?mandrujas?, recorrer às simpatias do passado pode ser a solução, assim como faziam os mais velhos para se verem livres da visitas não convidadas. Cada casa em todas as ruas coloca uma vassoura com o cabo virado atrás da porta de entrada. Para funcionar melhor ainda, pode espetar o garfo entre a palha das vassouras, porque isso ajuda a afastar de vez o mal indesejado. Se alguma caravana indigesta vai passar pelo seu bairro, junte os vizinhos e se cotizem na aquisição de sacos de sal grosso para espalhar pelas ruas, porque, segundo os antigos, é um poderoso purificador de ambientes. Povos distintos usam para combater às nefastas que infestam os ambientes. Tal prática é comum entre os japoneses, onde o sal é considerado um poderosíssimo purificador. Os orientais mais tradicionais jogam sal grosso todos os dias na soleira das portas sempre que se sentem ameaçados pela possibilidade de receberem uma visita mal-vinda. Com civilidade, sem ódio ou violência, contudo indignada, Alagoas repudia a presença de quem usou a pobreza para dela, contraditoriamente, roubar-lhe o pão de cada dia, fazendo da miséria trampolim para notório enriquecimento pessoal.