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TRAIÇÃO

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Em artigo publicado aqui nesta Gazeta de Alagoas, no último dia 29, o escritor Luis Fernando Veríssimo, com sua verve irônica, disse que uma república pode ser entreguista ou não: ?Uma república entreguista entrega tudo no País à iniciativa privada, até a impressão do seu dinheiro, e dá o que sobra a estrangeiros em troca de espelhinhos e miçangas?. Mas, com o ritmo de desnacionalização imposto pelo governo Temer ao Brasil, nas últimas semanas, não teremos direito sequer a espelhinhos e miçangas. Um projeto que surpreende e estarrece, já que abrange terra, ar e mar. Para se ter uma ideia, a legislação atual proíbe a compra de propriedades agrícolas por estrangeiros, mas o governo pretende alterar a lei. Isso ficou claro com a extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados, a Renca, uma área da Amazônia de inegável riqueza ambiental, que provocou protestos no mundo inteiro. Empresas estrangeiras foram avisadas cinco meses antes para que se preparassem para o butim. Participei de um debate sobre a Petrobras no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, na última terça-feira, e o caso da Renca, bem como a privatização da Eletrobras e outros projetos audaciosos do governo, provocaram preocupação e indignação. No caso da Petrobras, prepara-se a privatização da BR Distribuidora e de todo o sistema de refinarias da empresa. No caso da Eletrobras, primordial para nossa soberania, Temer pretende amealhar R$ 20 bilhões para cobrir o rombo do governo. Pasmem, são 233 usinas de geração de energia e 61 mil quilômetros de linhas de transmissão, tudo na bacia das almas (expressão antiga que se refere a quem desesperado vende seu patrimônio por ninharia). Áreas estratégicas para a Nação entregues à iniciativa privada. A sanha entreguista atinge também portos e aeroportos. Mas o que causou incredulidade foi a decisão de privatizar a Casa da Moeda. Trata-se de uma instituição secular ? foi criada em 1694 ? responsável pela segurança do nosso dinheiro e de uma série de impressos, desde passaportes a selos. Nada mais característico da nossa identidade do que nossa moeda. O governo não pode abrir mão do controle sobre a emissão de dinheiro, seria algo temeroso, com consequências imprevisíveis. Porém, nada disso está sendo levado em conta. A sensação é de que o Brasil está em liquidação, numa Black Friday sem limites. Tudo isso vem ocorrendo sem critérios tendo por base a justificativa de que as contas do governo não fecham. Contudo, se observarmos que a reforma trabalhista e a reforma da previdência maquinadas por Temer obedecem a uma lógica que beneficia a iniciativa privada, talvez os fatos não sejam tão aleatórios. Estamos atravessando tempos tenebrosos e não podemos deixar o Brasil se esvair das nossas mãos.

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