Opinião
O americano intranq�ilo
EDUARDO BOMFIM (*) Há um célebre romance do escritor Graham Greene, intitulado ?O americano tranqüilo?. Ele narra a história de um diplomata norte-americano, durante a ocupação francesa no Vietnã, então chamada de Indochina. Retornando de uma série de contatos na área cultural, deparei-me com vários norte-americanos no aeroporto internacional de São Paulo. Eles assistem à tragédia humana e material que acontece no Iraque e ficam sabendo, pela televisão ou jornais, do ódio crescente e sem precedentes que os EUA despertam em todo o mundo. E o que causa mais perplexidade para eles, manifestações de centenas de milhares de pessoas em todo o planeta contra a guerra. Protestos imensos em território pátrio, contra a invasão de suas tropas. Invasão sim, porque não se trata de ?libertação? de um país ocupado, a exemplo da Segunda Guerra Mundial. Mas a invasão tem dois objetivos estratégicos: impulsionar a economia americana, mergulhada em profunda estagnação e déficits espetaculares, além do domínio da segunda área em reservas petrolíferas do planeta. Sabem, igualmente, que apesar dos discursos pomposos do presidente do seu país, do superexército tecnológico da coalizão anglo-americana, a resistência do povo do Iraque é de quem defende sua pátria com sangue e tenacidade. Bombardear com aviões invisíveis e mísseis de longa distância cidades relativamente indefesas, é uma coisa, ocupar com a infantaria, apesar de sofisticadíssima, um país disposto a defender palmo a palmo o seu território é algo bem diferente. E todos sabem que esta nação não é nenhuma superpotência. O fato é que o povo, segundo a imprensa internacional e nacional, aliciou-se em armas. Os combatentes são militares e civis. Há uma outra guerra em curso, a da contra-informação através da mídia controlada pelo monopólio das agências inglesas e americanas do norte. Todos os dias, uma cidade é tomada e depois sucede o desmentido. Não há nenhuma idéia sobre os milhares de civis feridos e mortos nos intensos bombardeios que acontecem em ondas, a cada meia hora. Mais ainda, não existem dados sobre as baixas da ?coalizão? anglo-americana. Qualquer cidadão norte-americano sente-se, não tenho a menor dúvida, absolutamente intranqüilo fora do seu país. Digo mais, inclusive em sua própria nação. Os motivos podem ser vários. Preocupação com a sorte, o destino de parentes e amigos que estejam combatendo no Iraque, medo de sofrer algum tipo de represália. Surge, de quarta-feira para cá, a propaganda insidiosa de que o Iraque tinha armazenado armas químicas e que os prisioneiros das duas potências invasoras não estariam sendo tratados com humanidade. Quem poderia acreditar em tamanho cinismo, após as imagens das cidades em chamas sob bombardeios massivos? Só Nero, o degenerado imperador do império romano. Assim é que, esperando o meu vôo para Maceió, observei um americano, com uma imensa prancha de surf, longos cabelos louros, amarrados com um elástico, extremamente nervoso, olhando para os lados e para as pessoas que transitavam pelo aeroporto, sorvendo em goles mais que generosos, latas de cerveja e, ao lado, xícaras vazias de café. Outros compatriotas seus andavam e sentavam-se em grupos, buscando proteção mútua contra nós, brasileiros. Todos são inimigos, eis a verdade inapelável, implacável. É o que se passa em suas mentes aterrorizadas. Trata-se de um traço de paranóia coletiva e que não se sabe até onde se desenvolverá. O professor Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais da PUC do Rio de Janeiro, afirmou, na TV Globo, que os EUA não esperavam que a resistência a suas tropas sofisticadas fosse tão decidida. Declarou que a guerra passou para outro campo, o político. Porque vários países, inclusive do Primeiro Mundo, levantam-se contra o massacre brutal que se perpetra contra o povo do Iraque e exigem o fim da guerra. Em qualquer cenário sobre o futuro, a vitória anglo-americana será uma derrota. Eis uma das diversas angústias, do americano intranqüilo no Aeroporto de Guarulhos. (*) É advogado