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Opinião

Hora de reflorescer

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Trata-se apenas de uma parte da verdade ? e pouco substantiva ? a interpretação de que a Capitania de Alagoas nascera de um ato imperial. Certas descrições apenas robustecem o gesto de Dom João VI como espécie de prêmio às tropas alagoanas que, durante a Revolução Pernambucana de 1817, mantiveram-se fiéis ao Rei. No transcurso dos duzentos anos, prefiro focar nos estudos que nos remetem aos primórdios. Em homenagem à trajetória de todo um povo lutador, reitero a convicção de que a identidade alagoana se constituiu muito antes. Já estava presente na luta pela sobrevivência de seus habitantes, desde os Caetés até a resistência de Zumbi dos Palmares na Serra da Barriga, há mais de trezentos anos, quando os quilombolas defenderam com bravura a liberdade. O surgimento está gravado em cada movimento de resistência, misturando negros, índios e brancos, que formaram nossa autoconsciência. Quase um século antes de sua emancipação, a Comarca das Alagoas ? com Penedo, Porto Calvo, e a então cidade das Alagoas, a atual Marechal Deodoro ? já dispunha de cinquenta engenhos banguês e dez freguesias. Em 1817, contabilizávamos cem mil alagoanos. Portanto, o ato de desmembramento representou uma confirmação, um gesto de reconhecimento ao que se encontrava mais do que evidente àquela altura dos acontecimentos. E aqui destaco um pensamento do escritor e professor Dirceu Lindoso: ?Alagoas não nasceu do sonho de um monarca. Nasceu da morte de milhares de índios Tapuia-Kariri, da morte de milhares de negros de etnias diversas, do trabalho de milhares de homens pobres. Alagoas nasceu de uma grande paixão?. É com este sentimento que celebramos o bicentenário. A paixão que teve em 16 de setembro de 1817 não um início, mas um marco. E um marco que merece ser comemorado, para que possamos reviver essa brava história. Um marco que nos permite perceber que a segunda menor unidade da Federação já foi um gigante que se projetou na luta pela integridade territorial brasileira. Os olhos postos no passado facilitam o entendimento do presente e auxiliam na reflexão sobre o futuro. Alagoas ainda se depara com o desafio de acelerar seu desenvolvimento e superar as recorrentes crises sociais e econômicas, especialmente num momento em que o cenário nacional também se apresenta em crise. São deficits históricos em áreas essenciais de assistência à população. No plano econômico local, há entraves para o crescimento de seus setores produtivos, estes geradores de empregos e oportunidades. Eis o desafio histórico de Alagoas: reivindicar-se, reafirmar-se, no sentido de voltar a ser a terra vitoriosa, gloriosa, grandiosa e futurosa de que nos fala seu hino. Que busquemos, nesses nossos antepassados, o brilho e a força que eventualmente nos tem faltado; que reencontremos, no entusiasmo daquela capitania recém-emancipada, a magia e a coragem que extraímos de todos os inícios. Se o futuro está em aberto, a hora é de soerguer a autoestima dos alagoanos e a confiança em seu próprio destino, porque o reflorescimento não poderá vir senão desse mesmo povo.

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