Opinião
Um cheiro de saudade
Passeio pelas ruas de Murici, sozinho e a pé. Saio da minha antiga casa, na rua da Igreja Matriz, e subo para o Campo Grande sem pressa nenhuma, olhando as fachadas das casas, os rostos das pessoas, os detalhes de uma paisagem que, embora alterada pelo passar veloz dos anos, ainda evoca em mim lembranças que parecem ser de ontem. E cantarolo baixinho os versos de Santana, o Cantador: ?É como um cheiro de saudade, que na verdade nunca mais saiu de mim; anda comigo desde o tempo de menino, acompanha o meu destino, me faz tão feliz assim?. Na minha terra a saudade tem cheiro, tem cor, tem sabor. Não é uma coisa etérea, uma ideia vaga, uma criação do intelecto humano dissociada das coisas do dia a dia. Em Murici a saudade tem fisionomia, como uma velha conhecida, e quase se deixa tocar por minhas mãos cheias de memórias. A cidade mudou muito, diriam alguns; as construções antigas já nem existem mais, gritariam outros; o povo que havia na sua infância já morreu todo, insistiriam os mais amargos. Nada disso interessa para mim. O que vale é o que eu vejo quando deito os olhos sobre aqueles espaços, o que ressurge diante de mim, vigoroso como era nas décadas de 70 e 80 do século passado. As cheias do Mundaú puseram abaixo a Escola Integrada Municipal, mas eu ainda ouço o tocar da campainha chamando-nos para o início das aulas. A casa de dona Judith Alcântara desabou, mas eu ainda sou capaz de sentir o cheiro dos seus pastéis saindo do forno e de sentir medo de levar uma carreira do Tupã, o seu cachorro bravíssimo. A venda de Seu Horácio foi arrastada pelas águas, mas eu ainda vejo os cachaceiros encostados em seu velho balcão de madeira fedendo a sardinha e a charque. Os meus vizinhos, hoje tirando prosa na eternidade, novamente ficam nas calçadas e me cumprimentam amistosamente: Nita, Vanildo, Dulce, Natalício, Rinaldo, Alice, Bia, Lé, Aristeu, cada um com o seu jeito, a sua voz, a sua indumentária característica. Na bodega de Seu Manu Gomes, dona Lica faz um pacote dos suspiros mais gostosos que eu já provei em toda a minha vida. Madrinha Eulália me dá um monte de bolinhos, dona Tonha Ernestina embrulha as suas broas de goma ainda quentinhas num papel rude e limpo. Corro para alcançar o menino com o tabuleiro de pirulitos, mas ele já sumiu na esquina onde se vende flau. Sebastião Nery escreveu que ?o tempo não volta. O tempo rola. Não há por que querer o passado agarrado nas nossas pernas?. Em mim, o passado se enrosca é no meu coração, e grita, vivo, cada vez que eu caminho pelo chão de Murici.