Opinião
Tiros no Rio
Há uma regra básica em economia: só existe comércio se houver demanda pelo produto ofertado. Isso vale tanto para alimentos, por exemplo, quanto para drogas. O Rio de Janeiro mostra, atualmente, a aplicação desse princípio. O terror, os tiroteios frequentes, as mortes, as disputas territoriais refletem o interesse perverso pelo controle de um negócio altamente rentável. Mas será que o mercado de drogas na Rocinha é autofágico? Óbvio que não. Ali está a venda, mas o consumidor se encontra em outro local. Nos anos 90, o chefe da Polícia Civil, Hélio Luz, disse que Ipanema brilhava à noite, numa referência ao consumo de cocaína pelas classes média e alta cariocas. Era como enxugar gelo. Sempre que um chefe do tráfico era preso ou morto, outro imediatamente o sucedia. Segundo Luz, enquanto houvesse consumo, não haveria maneira de neutralizar o comércio ilegal. Lá se vão quase trinta anos e a situação não mudou, agravou-se até. Enquanto a população assistia aterrorizada o conflito na Rocinha, ocorria o Rock in Rio, megaevento saudado como um momento de paz e união proporcionado pela música. Enquanto o som emanava dos palcos, muita gente foi detida por posse de entorpecentes, inclusive um jovem ator, bastante conhecido, que ficou pouco tempo preso. Nesse interim, o público ouvia discursos emocionados sobre o caos instalado na cidade maravilhosa. ?Isso tem que acabar?, disseram alguns; ?não toleramos mais violência?, disseram outros, mas ninguém fez referência ao consumo de drogas. É como se houvesse uma dissociação imperceptível entre se drogar e não querer saber a origem daquilo que está consumindo. A cocaína compartilhada nos bairros nobres financia a compra dos fuzis que tocam a música do terror cotidiano no Rio de Janeiro. É necessário estabelecer essa lógica, para pôr fim às manifestações hipócritas. Todo trabalho feito para combater o tráfico será sempre nulo se o consumo continuar aumentando, e não se iludam: a cada dia surgem novos consumidores. Como então resolver esse problema? Conscientização parece ser a resposta. A imagem disseminada de viciados consumindo drogas espalhados pelas ruas só em parte é verdadeira. A grande maioria usa drogas por recreação. São pessoas normais, com vidas estruturadas, que se indignam com a violência, que acham que bandido bom é bandido morto, mas que não internalizaram o dilema de que o seu ?lazer? financia as armas, os assaltos, a prostituição o crime. São pessoas que reclamam das políticas públicas, dos programas sociais, do bolsa família, dos pobres que, segundo eles, são os culpados por tudo. Na Rocinha, há uma população honesta e trabalhadora, à mercê de facínoras sustentados por gente que apregoa ideias persecutórias, de extermínio até. Isso sim, tem que acabar.