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Opinião

Morrendo de inanição em meio à fartura

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É... são muitas as síndromes, os transtornos e os comportamentos ?inadequados? da nossa época. Bullying, anorexia, bulimia, obesidade, compulsões... Assim como estes problemas, as virtudes e os vícios humanos não são de existência contemporânea. O que muda é o contexto e as sutilezas de suas inserções, dentro da crise ética e moral na qual vivemos. Tudo é invertido, o garoto bom e honesto é considerado bobo, e transforma-se em alvo de bullying dos colegas. Como disse São Paulo: ?Agir contra convicção é pecado.? Se ele quiser agir por convicção, e sobreviver incólume, terá que ser ao menos um pouco subversivo, é o que inclusive vemos nos filmes como característica dos mocinhos. Entendo como saúde um complexo equilíbrio entre vários fatores, como físicos, emocionais, espirituais... entre outros. A minha preservo em tênue equilíbrio, negligenciando momentaneamente, alguns aspectos em detrimento de outros. Até agora ela tem mantido-se absolutamente satisfatória. Fico a me interrogar se por sorte ou por disciplina. E, por beleza, entendo ?que um corpo bonito é aquele que traz uma pessoa feliz dentro dele.? Por equívoco, pensamos que magros sofrem menos que gordos. Não é bem assim. A sociedade exige que todos enquadrem-se em um estereotipado modelo/padrão, e pune em maior ou menor grau, de modo disfarçado e/ou escrachado, a todos que fogem desta regra. Nós, mulheres, queimamos sutiãs, usamos batas, mas ainda continuamos atadas aos espartilhos de nossas bisa e tataravós. Porém, contrário ao que pensa o senso comum, nem sempre por vaidade ou medo de engordar. A busca da beleza não explica, apenas faz parte do problema. O dilema feminino com o peso data da época medieval. Culturas diferentes nem sempre trazem os mesmos fatores como geradores dos distúrbios alimentares. Existem estudos sobre jejuns religiosos na idade média, que fazem uma analogia entre o sintoma, e a estrutura familiar da época. As Santas Medievais jejuavam assim como as atuais anoréxicas. No entanto, buscavam transcender a estrutura patriarcal extremamente opressiva. Ser serva de Deus era não servir a homem algum. Obliterar sentimentos humanos de fadiga, de dor, desejo, fome... era ser dona de si. O objetivo era controlar a própria vida e não o temor de ganhar peso. Hoje, a dieta busca a atratividade, e não Deus. Ainda assim, nos dois períodos, existe um foco comum, a busca do autocontrole, como um modo de obter domínio sobre a própria vida. Se é que isto é possível, solicito um olhar/atitude mais generoso e humano sobre todos aqueles que não integram o modelo/padrão social. Afinal, alguns deles são espécies de arquétipos do inconsciente coletivo. Onde tudo é igual, não há desenvolvimento. As diferenças promovem desconforto, estranhamento, gerando reflexões e questionamentos, tendo quase sempre como consequência o crescimento. Viver em paz não significa estar em um ambiente sem conflito. É necessário aceitar a realidade das diferenças, refletir criticamente sobre elas de forma construtiva, e buscar uma convivência mais harmônica.

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