Opinião
Flutuando: de Paris a Versalhes...
Outro dia, folheando uma revista de turismo, encantei-me com uma frase, dizendo mais ou menos assim: podemos viajar por todo o mundo em busca da beleza, mas, se não a trouxermos conosco, nunca a encontraremos... Sou um viajante multimodal, pois já usei todos os meios de locomoção conhecidos, inclusive desde o Tuc Tuc e as barcaças do sagrado Rio Ganges, na Índia, até as feluccas egípcias no rio Nilo, sem, contudo abrir mão de realizar, correndo a pé, ao menos um dos trechos visitados. Foi assim em inúmeras regiões nos quadrantes do mundo. A emoção maior, contudo, vivenciei dias atrás ao cumprir o percurso entre a cidade de Paris, até Versalhes... Ali estava eu, cercado por mais de vinte e cinco mil outros corredores, bem defronte ao Champs de Mars, visualizando o Sena e, mais adiante, os jardins do Trocadéro. A temperatura beirava os 15 graus centigrados às 10 horas da manhã... Sentia os ossos fagulharem e o sangue pulsar mais forte, com os músculos se contraindo a cada novo movimento enquanto as células do corpo, em harmonia, pareciam dançar juntas, sempre no mesmo ritmo, não muito acelerado. Estava na ?Cidade Luz? e, desta vez, realizando um antigo desejo, pois, sempre prestigiei a máxima de que um homem não deixa de existir quando morre, mas quando para de sonhar... De repente, dada a largada da corrida conhecida como ?La Grande Classique?, a massa humana se movimentou, inicialmente bem devagar para, depois, aumentar o ritmo aos poucos. No mesmo instante em que meus pés se mexiam, a mente viajou, como se estivesse a sair de meu próprio corpo. A Torre Eiffel, monumentalmente gigante, que, minutos antes estava a meu lado, começava a perder altura com o distanciamento. Na medida de evolução do percurso encantava-me com a alegria da cidade, confirmando a certeza: Paris é escandalosa, despudorada, absurdamente linda... Em partes do percurso, para animar os corredores, acordeonistas tocavam La Vie en rose; mais adiante, após percorrer um longo túnel, uma orquestra encantava com sucessos atuais, e, logo depois, uma trupe de mulatas rebolavam ao som de um samba bem brasileiro; grupos de pessoas lotavam as ruas para nos aplaudir. Cada esquina daquela cidade reservava uma surpresa; qualquer casa antiga que enxergava, era muito mais preciosa que muitos dos conjuntos arquitetônicos que conhecia... e, lá ia eu, em minha marcha contemplativa, deliciando-me com places, carrefours, rues, alees, passages e boulevards, até, após percorrer uma longa e íngreme ladeira, atingir a Route Royale que, nos idos dos Séculos XVII e XVIII foi tão movimentada, principalmente pelos áulicos fazendo a corte ao Rei Sol Luís XIV. Então, adentrei a Avenue de Paris, uma longa artéria com mais de dois quilômetros de extensão, onde, desde o início, podia-se vislumbrar a imponência do Castelo de Versalhes, reta final do evento. Naquele momento senti-me um pouco rei. Com a emoção aflorando em meu peito, imaginei não ser apenas corpo (moléculas, átomos e oxigênio). Eu era, simplesmente, minha mente, minha alegria, minha realização. Foi assim que flutuei, entre Paris e Versalhes.