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Opinião

Horror e maldade

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Depois dos campos de concentração nazistas, das bombas atômicas sobre o Japão e o martírio do Vietnam, a humanidade parecia não acreditar que algo tão terrível pudesse novamente acontecer. Mas eis que chega o século XXI e com ele uma outra visão da maldade, do horror em estado bruto; a derrubada das torres gêmeas, bombas, caminhões avançando sobre as pessoas, o fuzilamento de inocentes. Estamos diante do inexplicável, do imponderável, um cenário apocalíptico que nos encaminha para a destruição ? como está na bíblia, dirão alguns. Mas essa humanidade atravessou milênios chegando à beira da aniquilação em muitos momentos, porém sempre encontrando forças para sair do desespero e seguir em frente. Seria diferente agora? O que aconteceu em Las Vegas, conhecida como a cidade do pecado por causa dos seus cassinos e excessos, transcende o racional e adentra no perigoso terreno da insanidade. Dezenas de pessoas mortas por um atirador sem motivo, coisifica a solidariedade e reduz tudo a alvos. O assassino possuía um arsenal comprado legalmente que foi usado não para a defesa, como prevê a constituição americana, mas sim para matar, exclusivamente para dizimar uma massa anônima que se divertia num festival de música. Houve episódios semelhantes na recente história americana, como o dos garotos que atiraram em colegas em Columbine, ou do homem que assassinou dezenas numa boate gay, todavia havia o que se chama em música e literatura de leit motiv, algo recorrente, ódio a alguma coisa, ou vingança. Vegas abriu espaço para uma outra coisa. A cidade surgiu no início do século passado, mas só ?explodiu? em 1946, quando o mafioso Bugsy Siegel abriu o Flamingo Hotel iniciando a era dos cassinos. A máfia tomou conta da cidade e o uso de armas tornou-se algo corriqueiro. Hoje, pessoas andam armadas pelas ruas, numa versão moderna dos velhos filmes de faroeste; não há duelos nas ruas, todavia há massacres. Do alto de um hotel cassino, um contador aposentado, abriu fogo contra a multidão que ouvia música. Tinha consigo vários fuzis e o mundo se pergunta como alguém consegue carregar tal poder bélico sem despertar suspeitas? Talvez, porque armas sejam como, por exemplo, tênis, na excêntrica lógica americana. Está na segunda emenda da constituição dos Estados Unidos, de 1791. Nos últimos anos, algumas medidas restritivas foram tomadas, mas em 2008, numa decisão surpreendente, a Suprema Corte garantiu o direito, o que fez muitos estados de recuarem da tentativa de controlar a venda e a posse de armas. Nas mãos de sociopatas, as armas perpetram a maldade em estado puro, e os americanos mostram-se insensíveis para com os massacres, a banalização do mal, como foi dito no julgamento dos nazistas em Nuremberg. Que o apocalipse não esteja tão próximo. Rezemos.

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