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Tragédia anunciada

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Não foi por falta de aviso. Há quase 25 anos, estudiosos e ambientalistas já chamavam a atenção para as condições da bacia do rio São Francisco. Na época, a situação mais visível era o desmatamento das matas ciliares, das regiões de nascentes e das encostas, o que gerava o carreamento de terra para o leito do rio. Além disso, as grandes barragens construídas ao longo do rio alteraram o ciclo de vazão e cheia, fazendo com que as águas cheguem à foz sem força e provocando o avanço do mar. Hoje, o nordestino assiste impotente ao seu principal manancial agonizar. O rio ? que recebeu esse nome há 516 anos, em homenagem ao santo de Assis ? vive uma situação preocupante, resultado tanto da longa estiagem quanto das diversas ações humanas de degradação, que visam à lógica econômica em detrimento da preservação ambiental e da população ribeirinha dos rios brasileiros. Segundo especialistas, essa é a pior crise da Bacia do São Francisco ? que abastece 97% da região ? nos últimos 84 anos. Para se ter uma ideia, o lago de Sobradinho, na Bahia, está apenas com 8,69% do volume útil. O rio praticamente não tem mais mata ciliar, o que provoca assoreamento e baixa reprodução de peixes. A revitalização do São Francisco vem sendo prometida por vários governos. No período Lula, a questão ganhou relevância, mas o governo acabou privilegiando o megaprojeto da transposição. Além disso, era um programa tímido, que não ia às raízes dos problemas. No ano passado, o presidente Temer lançou o Plano Novo Chico, com promessa de retomar as obras. Entretanto, investimentos em combate à erosão, obras em hidrovias, sistemas de água, saneamento e coleta de lixo foram reduzidos. É preciso que a revitalização se torne uma política pública mais consistente, e isso requer também uma reorientação da proposta de desenvolvimento da região e uma melhor gestão da água. É necessário que o programa de revitalização seja efetivamente tirado do papel e que todos, incluindo os órgãos públicos, os empreendedores da iniciativa privada e os usuários, estejam envolvidos. Caso contrário, o rio que já foi o grande provedor desta imensa região sucumbirá de vez.

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