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Opinião

O barbeiro e o doutor

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Releio, com frequência, as obras literárias do escritor palmeirense Bezerra e Silva ? meu querido pai de saudosa memória ? nas quais percebem-se seu estilo brejeiramente inconfundível e sua versatilidade, a exemplo de Contos e Festas Sertanejas, em que o autor narra a ?história? de um barbeiro e um juiz de direito. Uma pequena cidade de Pernambuco vivenciava a chegada do primeiro juiz de direito daquela comarca, despertando no barbeiro Evandro de Oliveira a possibilidade de conquistar o magistrado para o rol de seus clientes. Dito e feito. Ao assumir a comarca, o juiz deu início ao entrosamento com a cidade, incluindo a clientela do barbeiro que, conversa vai, conversa vem, no primeiro dia do juiz na barbearia saiu-se com esta: ?? Doutor, o senhor sabe que eu sou papai?/ ? Não, Evandro! É homem ou mulher?/ ? É um garoto lindo! O problema é que na cidade não existe um homem digno de ser meu compadre./ ? O senhor é novato aqui, mas posso lhe assegurar que, nesta cidade, ninguém presta./ ? Pensando bem, eu e minha mulher queremos convidá-lo para ser o padrinho do nosso filho. O doutor não escondeu sua surpresa e disse: ?Ora Evandro, vamos marcar o dia da cerimônia?. Assim, diante da aceitação do convite, o barbeiro achou melhor não cobrar pelos serviços que seriam prestados ao juiz. Feliz da vida, o Evandro procurava honrar e moralizar, ainda mais o seu ambiente de trabalho com a presença de um compadre tão importante que, com o passar dos dias, ganhou uma verdadeira legião de admiradores. Criou-se um ritual: Toda vez que o magistrado chegava à barbearia, quem lá se encontrava oferecia-lhe sua vez na ordem de espera. Diante de tanta gentileza daquela gente, quando o juiz ia embora dizia: ?Olha, compadre tudo isso é meu! Pode anotar?. A fama do juiz bonzinho espalhou-se rapidamente, enquanto Evandro, que se sustentava com seus cortes de cabelo e barba, ficava ?tiririca? pensando com seus botões: ?Maldita hora que convidei o doutor! Ora, quem já viu uma coisa dessa? Esse ?tudo isso é meu?, eu é que fico no ?ora veja?... trabalhando de graça?. A notícia foi se espalhando e os aproveitadores enchiam a barbearia aos domingos, antes da missa na igrejinha de Santo Antônio. Decidido a acabar com aquela ?festa?, o Evandro falou discretamente para o magistrado: ?O senhor ainda não conhece essa gente! Doutor, acabe com esse ?pagamento? de barba e cabelo dessa gente, pois a coisa está ruim para meu lado, fedendo a chapéu de couro velho queimando. Parece até mandinga que fizeram para mim!? O magistrado, ouvindo as lamentações do seu compadre, entendeu o seu recado e, ao deixar a barbearia naquele dia, despediu-se de todos com um simples ?bom dia para todos?, frustrando-os, pois já contavam com o gesto nobre do magistrado. Daquele dia em diante tudo voltou ao normal, segundo Bezerra e Silva, que tanto nos faz falta.

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