Opinião
O que não se pode frear
Meu pai, felizmente, deixou de tingir a cabeleira. Tendo passado dos 70 anos, embora em invejável forma física e boa saúde, ele envelheceu, no ritmo normal e irrefreável da vida, cabendo-lhe bem melhor os fios brancos que são realmente seus do que os tons alourados obtidos à custa de produtos químicos que em nada se afinam com a sua idade cronológica. Eu mesmo, aos 47, já tenho todos grisalhos os poucos cabelos que me restaram, herança da calvície característica da família da minha mãe, de modo que me parecia no mínimo estranha a cor forte que ele ostentava, em contraste com as minhas madeixas esmaecidas pelo tempo. Também eu envelheço a cada dia, mês a mês, experiência após experiência, compreendendo que a nossa caminhada terrena é finita, mesmo que essa verdade não nos seja lá muito agradável. É a realidade que não se controla, não para, não estanca: o envelhecer é um processo que começa no nascimento e só termina com a morte. Quando eu era menino, meu avô Zezinho tinha pouco mais da idade que eu tenho agora, e eu o enxergava, mesmo ainda ativo e trabalhando, como um velhinho prestes a dobrar o cabo da boa esperança. Eram cinquentões todos os seus contemporâneos, avós dos meus amigos, para mim senhores beirando a decrepitude. Hoje é que eu vejo como eles eram fortes, produtivos, capazes, muitos ainda fazendo filhos bem mais novos do que os seus próprios netos. O avançar da idade nunca lhes tirou a capacidade de buscar novos desafios. Por isso a vida nos pede intensidade, todos os dias. Aproveitá-la plenamente, sem gastar energia tentando frear o que não está no nosso controle. Cada idade, cada fase nos convida a descobrirmos uma nova versão de nós mesmos, a nossa essência, o que de melhor temos a oferecer. Se a pele está mais flácida, os músculos mais frágeis, as juntas mais doídas, paciência; importa é que nada disso refreie em nós a vontade de sorver a goles largos os momentos que nos são ofertados, saboreando-os sem perder nada. Carreguemos menos coisas ao longo da jornada, livremo-nos de tantos medos, preconceitos, verdades preestabelecidas. E sigamos adquirindo não somente rugas, mas sobretudo experiências, no prazer e na conquista de descobrir sempre algo novo. O tempo, implacável, não rouba o que faz parte de cada um de nós, aquilo que fomos, as relações que construímos em meio às perdas inevitáveis. Rachel de Queiroz disse que ?a vida ensina, eu acho, surrando?. O ideal seria que nós aprendêssemos pela ternura e pela aceitação do que em nós se transforma e se reinventa.