Opinião
Queimem O Jardim das Delícias de Bosch
Jeroen van Aeken, ou simplesmente Hieronymus Bosch, como assinava seus quadros, ao lado de Bruegel, Dürer, fazem parte de uma lista de artistas flamengos conhecidos no mundo inteiro, sendo Bosch o único que viveu e morreu, antes da Reforma Protestante. Sua obra poderia, muito bem, ser classificada como surrealista, embora esta concepção só haja surgido em 1924 através do crítico André Breton, teórico do estilo que consagrou Dalí ou até mesmo, realismo fantástico que também permeou a literatura do século XX. Talvez, sua obra mais espetacular seja O Jardim das Delícias, um tríptico de 2.20 x 3.89, pintado em 1504 que está no Museu do Prado em Madri. Para quem imagina que já viu tudo em uma obra de arte, seja em relação nudez, orgias sexuais, símbolos fálicos, heresias, zoofilia, sadomasoquismo e até tortura precisa observar de perto tríptico nas suas representações, no lado esquerdo (de quem olha), ?o Paraíso? com a criação do mundo e do homem; do lado direito, ?o Inferno? e ao centro o ?Jardim terreno?, com todas as suas delícias e pecados. Como um artista remanescente do período medieval, Bosch conhecia muito bem o bestiário que compunha o imaginário de sua época: a Baixa Idade Média. Sua obra não foi feita para escandalizar, mas para alertar o mundo sobre o pecado e o castigo eterno, temas que a Escola Flamenga ainda alimentou, mesmo após a Reforma Protestante, que condenava a Roma de Rodrigo Bórgia, Giuliano della Rovere e principalmente, de Giovanni di Lorenzo de Médice, o Papa Leão X, quando a igreja se insurgiu. A arte sempre andou à frente de seu tempo, registrando os acontecimentos, compondo a História da vida social da humanidade através das suas representações, tendências, nos diversos estilos de cada época, preconizando o presente e o futuro. Sempre foi assim e continuará sendo sempre porque esta é, acima de tudo, a função da arte, desde que perdeu seu status belo-artístico. Razão para que os curadores, sensíveis às questões sociais de maior relevo no mundo, se voltem para obras que retratam as principais mazelas deste século. Com isso, voltamos à mesma situação de O Jardim das delícias de Bosch. Esta obra, certamente, se produzida neste século seria queimada, na ?fogueira das vaidades?, por atentado ao pudor. Assombra-me, portanto, a manchete da folha de São Paulo de 11 de outubro: ?Masp deve ser o próximo alvo da onda de puritanismo antiarte?. O tema da exposição será: Histórias da Sexualidade. Trata-se de uma mostra que vem sendo organizada há anos e calhou de acontecer neste momento de caça às bruxas.