Opinião
Uma herança chamada Reforma
A 31 de Outubro de 1517 surge no horizonte da história da Igreja cristã uma proposta de revisão e reforma de ensinos e doutrinas então vigentes. Martinho Lutero, monge católico e professor na universidade de Wittemberg, afixou suas 95 teses, pequenos artigos de reflexão doutrinária, convocando a todos para um debate a respeito da doutrina do perdão dos pecados e da salvação, combatendo o mercado religioso dominante. A Reforma não surgiu com a proposição de um racha, divisão ou separação, nem com a intenção de formar uma nova igreja. Ao afirmarmos no credo apostólico, ?creio na santa igreja cristã ? a comunhão dos santos?, afirmamos junto com toda a cristandade que a Igreja é de Deus e por isso é una e santa. E, embora composta aqui na terra por nós pecadores, é santa porque fomos redimidos por Cristo na cruz, santificados pela presença e ação do Espírito Santo que habita e age em nós por meio da palavra de Deus e dos sacramentos ? batismo e Santa Ceia, meios pelos quais nos é oferecido a Graça de Deus. Onde, por meio da pregação correta da Palavra de Deus, e pela ação do Espírito Santo, há arrependimento dos pecados, conversão e nova vida em Cristo, ali está a Santa Igreja Cristã, independente do nome, estatutos, liturgias e tradições adotados. Pois, como disse Jesus a Nicodemos no evangelho de João 3, ?ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nascer da água e do Espírito.? É o Espírito Santo que nos faz igreja mediante o novo nascimento espiritual. O Espírito refaz em nós a imagem e semelhança de Deus, para vivermos na terra como novas criaturas, filhos redimidos e queridos de Deus, num sacerdócio santo, indivisível, uno, embora multifacetado em várias denominações. Como cristãos, todos somos herdeiros da reforma. Mas antes de sermos herdeiros da reforma, somos herdeiros da igreja cristã, que permaneceu desde o tempo dos apóstolos até hoje, por obra de Deus, apesar dos muitos equívocos humanos. Portanto, a Reforma foi uma bênção para toda a cristandade, pois devolveu à Igreja a verdadeira luz de Cristo por meio do Evangelho, devidamente restaurado em seu ensino e pregação. E assim, a verdadeira Igreja de Cristo permanece una e santa embora humanamente tão multifacetada em denominações diversas. O apóstolo Paulo tratou disso ao escrever à ?igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso. Rogo-vos que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer.? Esse é o espírito da celebração da Reforma. Uma celebração na unidade da fé e do amor de Cristo, cônscios de que a Reforma não é um evento estanque do século XVI, mas que deve ser uma ação contínua da Igreja, visando corrigir desvios e retornar sempre ao verdadeiro Evangelho de Cristo.