Opinião
Miséria e turismo
Em meados do século XIX, quando Karl Marx disseminava o socialismo pela Europa, o francês Proudhon escreveu A Filosofia da Miséria; o alemão reagiu com A Miséria da Filosofia. Marx e o socialismo tornaram-se assuntos para nostálgicos, mas a miséria continua por vezes edulcorada, como acontece agora no Rio de Janeiro. Uma turista espanhola foi morta por um tiro de fuzil disparado por um policial quando fazia um tour dentro de um carro pela favela da Rocinha. A essa curiosidade mórbida cabe perguntar: é o turismo da miséria ou a miséria do turismo? Quem em sã consciência se arrisca por uma área de guerra para ver de perto aquilo que causa aflição nas transmissões de TV? Tiroteios, balas perdidas, mortes. Numa busca rápida pela internet é possível encontrar várias empresas de turismo oferecendo passeios pelas favelas cariocas. Não há critérios, a miséria atrai pessoas de vários lugares do mundo, que procuram uma experiência exótica, talvez para contar a filhos e netos. A ironia atroz é que a turista não foi morta por bandidos e sim por policiais que estariam ali para oferecer segurança. A inversão causou comoção, abalou o já abalado governo do Rio de Janeiro e pôs, mais uma vez, o Brasil no centro das atenções internacionais. Há muitas perguntas ainda sem respostas. Como foi agendado o passeio? O veículo deveria ser escoltado? Ignorou-se a ordem de parar na blitz? Esse tipo de turismo deveria ser evitado? No final do século XIX, com a demolição dos cortiços e a abolição da escravatura, teve início a ocupação dos morros cariocas. Proibidos de estudar e sem qualificação para trabalho senão a agricultura, os negros foram erguendo barracos que acabaram resultando nas favelas que conhecemos hoje. Nos anos 70 e 80, a classe média carioca subia os morros para acompanhar os famosos ensaios das escolas de samba. Era, por assim dizer, chic. Havia o jogo do bicho, o tráfico de drogas, mas não o poderio militar nas mãos de bandidos visto atualmente. Os conflitos são diários nas favelas cariocas, as balas perdidas encontram corpos inocentes, a polícia, acuada, reage intuitivamente, sem planejamento, o que, por vezes, pode resultar em desastres. Como então fazer turismo num ambiente desses? O turismo da miséria leva à filosofia da miséria. Ser pobre e favelado não significa ser objeto de observação por parte da sociedade rica e letrada. Estão ali cidadãos, trabalhadores, vivendo, muitas vezes, em situação precárias, longe das políticas públicas que deveriam garantir melhores condições de vida. Essa ausência de tudo é o que provoca a curiosidade. Se isso perdurar, será realmente a miséria do turismo.