loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
quinta-feira, 06/08/2026 | Ano | Nº 6283
Maceió, AL
24° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Opinião

Cada coisa, uma coisa

Ouvir
Compartilhar

Vivemos momentos de recrudescimento da censura ou são tempos de desrespeito à família tradicional e aos bons costumes? No mundo real ou virtual, os tempos são, na verdade, de posicionamentos ideológicos grosseiros, generalizações e seguimento de cartilhas. Poucos parecem se interessar em analisar as coisas como elas realmente são, como elas realmente foram. Parece que a nova configuração social que dividiu os brasileiros a partir de 2013 tem provocado o rareamento do senso crítico. Ninguém parece disposto a pensar por si mesmo. Sem lentes ideológicas, é possível diferenciar coisas diferentes. Uma exposição com quadros considerados ofensivos e uma criança tocando um homem adulto nu, o que são? Seja lá o que forem (não tenho a pretensão de ser o norte moral de ninguém), são coisas distintas. Quadros não podem ser nada além disso. Se imagens afetassem o cérebro assim tão facilmente, uma geração inteira de crianças que cresceu vendo sangue jorrando na TV dos anos 80 estaria perdida. Se tivessem sido deixadas em paz, as pinturas polêmicas teriam sido vistas apenas pelos pouquíssimos destemidos que frequentam museus no Brasil. A ojeriza sentida por cautos e religiosos à representação infame de seus ídolos é perfeitamente entendível e, para um moderado como eu, merece respeito. A execução efetiva da censura, porém, seria bem complicada. Além da dificuldade de se escolher uma autoridade regulatória para definir o que é ou não ofensivo (seria o Papa?), não custa lembrar que para os evangélicos as imagens de santos são heréticas. Entre as duas maiores religiões do País, o que uma acha sagrado, a outra acha profano. Sem falar nos radicais muçulmanos, que condenam a morte quem quer que eles achem que desenhou Maomé. E por falar nisso, censura e boicote comercial não são a mesma coisa. Se pudessem voltar no tempo, artistas como Chico e Caetano com certeza prefeririam passar por um embargo espontâneo dos fãs do que a censura e perseguição que sofreram na ditadura. E quanto ao homem pelado? É arte? É pedofilia? Bem, não custa lembrar que nem todos os espaços culturais são prédios transparentes de vidro em parques de São Paulo. E se um artista decide reproduzir a obra no porão de casa? E se um artista mais ousado decidir ir além e pedir para as crianças tocarem não a perna, mas a genitália do modelo? Melhor mesmo, como tudo na vida, analisar as coisas caso a caso.

Relacionadas