Opinião
A medicina dos sonhos e a realidade nacional
?Essa lei é um grito de socorro! Pena que não veio acompanhada de mais recursos! Então a sua aplicabilidade nacional é dificílima!?, exclamou a dra. Luciana Holtz, na semana passada, quando participava de uma mesa-redonda, conjuntamente com luminares da oncologia internacional durante o Congresso Brasileiro de Radioterapia no Rio de Janeiro. A dra. Holtz é presidente da Oncoguia, ONG que se dedica a orientar pacientes e a população sobre como lidar com o câncer: a prevenção, o diagnóstico, os tratamentos, direitos dos pacientes, enfim, tudo o que possa ser útil para a população e principalmente para os pacientes acometidos pela enfermidade e seus parentes. É um belíssimo trabalho voluntário, extremamente importante. Em um congresso nacional com grande número de renomados convidados internacionais, advindos de centros mundiais de luta contra o câncer, o rotineiro é que se dê destaque aos grandes avanços aferidos no controle dessa doença ? com as novas drogas e os modernos equipamentos de radioterapia ?, e esse não foi diferente. Contudo, aquela questão abordada pela dra. Holtz alertou para a outra face da moeda. É que, embora exista a Lei 12.732, de 2012, que preconiza que se trate os pacientes do SUS diagnosticados com câncer em 60 dias, a realidade mostra que no País, em pouquíssimos lugares se consegue cumpri-la. E a situação, paradoxalmente, é pior nos grandes centros: no Rio de Janeiro, no Inca, existem mais de 100 pacientes com câncer do colo do útero esperando por uma braquieterapia. Sem previsão de realização, lá, pacientes esperam 8 meses por uma cirurgia e 50% não conseguem finalizar suas quimioterapias. Em outros grandes centros, como Minas Gerais e Brasília, a situação é semelhante: de 10 meses a um ano de espera pelos tratamentos. O Sistema Nacional de Registro de Câncer (Siscan), demonstra que a maioria dos pacientes no Brasil, 54%, só são atendidos depois desse prazo legal. O tempo e a dificuldade que os pacientes enfrentam para conseguir fazer o diagnóstico, pelo que vejo diariamente com imenso pesar, são bem mais longos e complicados, o que somado ao tempo de espera pelo tratamento pode levar 2 anos. Em Alagoas, felizmente, a situação de atendimento aos pacientes do SUS é menos ultrajante. A soma de esforços dos hospitais (Santa Casa de Maceió, Hospital Universitário, Haia e Arapiraca), conjuntamente com os Ministérios Públicos estadual e federal, faz com que a situação seja menos perversa. Não existem filas para radioterapia nem para quimioterapia. Temos, todavia, o mesmo problema nacional com os diagnósticos tardios (acima de 60% dos casos), e a razão principal é a rede básica, o início da peregrinação dos pacientes, muito desprovida de recursos, sucateada, o que tem se agravado dramaticamente.