Opinião
O espírito das coisas
Há, numa casa, móveis e objetos repletos de história. Mesmo com o passar dos anos eles continuam por ali, recordando a linha do tempo e suscitando em nós as mais doces lembranças. Da minha avó Izarele restou-me apenas, materialmente falando, um livrinho de orações, o Santo Antônio da sua devoção e um frasco de perfume onde ela punha o Seiva de Alfazema que era a sua marca característica. São coisinhas simples, sem valor monetário algum; o vidro, inclusive, tem a tampa quebrada e mal fecha direito. Mas o laço que me prende a elas não pode ser comprado por dinheiro algum, pois quando as toco é como se de novo tocasse vovó, tal como eu a tocava no ontem hoje distante. De fato, aquilo que nos cerca não é feito unicamente de matéria. Muitas coisas possuem uma carga simbólica que só nós somos capazes de compreender, com a sua história única, a sua capacidade de despertar as nossas memórias mais caras, com todos os seus afetos e paixões. Por isso eu gosto de tê-las à vista, expostas, banhadas pela luz, contando silenciosamente as suas lembranças. Em Murici ainda se vê muito disso, especialmente na morada de gente idosa: a penteadeira que está no quarto há três gerações, o oratório que veio do sítio de um bisavô, o Sagrado Coração de Jesus em moldura oval que, embora desbotado, continua abençoando a sala principal desde que nós éramos moleques de calças curtas. Morre o dono da casa e outro toma o seu lugar, as crianças crescem e batem asa, reforma-se o imóvel para acolher parentes e agregados, mas sempre remanesce algo que, desafiando a finitude, atravessa as eras e se mantém como fiel sentinela de um passado que insiste em não se findar. E quando olhamos para algumas dessas preciosidades quase somos capazes de reviver o que elas presenciaram, quase nos tornamos de novo partícipes das cenas que se perderam nas brumas do tempo voraz. Ao longo da caminhada já me desvencilhei de muita coisa. Fiquei apenas com aquilo de que não consegui me desfazer, pelo apreço amoroso. Um patrimônio mirrado, que certamente não interessará a mais ninguém depois que eu me for, e que certamente será descartado pelo Luís na primeira oportunidade. Paciência; é assim que as coisas são, e quanto a isso nada há que se possa fazer. Há quem diga que necessitamos deixar para trás o que já não nos preenche, para permitir que o novo entre. O segredo seria esquecer e lembrar, adquirir e perder, registrar e apagar, aparando as nossas próprias arestas. E seguir em frente, carregando a marca do que nos fez melhores.