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Opinião

Nada está no seu lugar

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As negociações que resultaram na suspensão das denúncias criminais contra o presidente Michel Temer tiveram um custo que pode chegar a R$ 32 bilhões de reais. A base de apoio exigiu e o governo aquiesceu em concessões e medidas, expondo, dessa forma, as entranhas das tratativas políticas para manter alguém no mais ?alto cargo do País? sem apoio popular. Um deputado, ao fim da votação, chegou a cantar e dançar: ?Tudo está no seu lugar, graças a Deus?, versos de uma música do compositor Benito di Paula, que reagiu contra o uso de sua obra num momento tão tenso. Mas o que está no lugar? O presidente usar de todos os meios para se manter no cargo, mesmo que isso signifique prejuízo para o País? Deputados usando barganhas para garantirem penetração nas bases eleitorais? Ou a institucionalização de que o crime não atinge a quem detém o poder? Todas as alternativas foram vivenciadas nos últimos dias. No gráfico geral da votação é perceptível que as bancadas do agronegócio e evangélicos garantiram a maioria a Temer, mesmo que isso envolvesse algo questionável como o decreto que mudou os critérios para o que se considera trabalho escravo ? vale lembrar que o presidente afirma ser constitucionalista, professor universitário com livros publicados, mas parece ter esquecido a biografia (seus ex-alunos devem estar perplexos). Numa análise acurada é possível detectar que a maioria que votou no presidente é branca, tem renda superior a 2 milhões de reais e se concentra no sul e sudeste. Ou seja, a classe alta fechou com Temer. Na outra ponta da tabela, os deputados negros votaram contra, bem como representantes de estados mais pobres como Alagoas, Acre e Espírito Santo. Por não aderirem ao balcão de negócios, esses estados serão retaliados, terão dificuldades em obter recursos para desenvolver projetos prioritários. Nossa democracia, apesar da liberdade de expressão, fragiliza-se diante de situações como essa. Quando os brasileiros pedem transparência, ética e combate à corrupção deparam-se justamente com o contrário: um presidente acusado de formação de quadrilha e um esforço hercúleo para livrá-lo de tal pecha. Naquele momento da votação, o que se requeria não era a criminalização de Temer, mas sim a possibilidade de que ele viesse a ser investigado. O resultado final do processo, o salvo conduto até o final do mandato, mais do que apaziguar os ânimos, acirrou as contradições. Qual a verdadeira história por trás das gravações, malas de dinheiro e prisões de aliados? Definitivamente, nada está no seu lugar.

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