Opinião
A viagem das cinzas
Mesmo com todo esse movimento em torno das celebrações do Dia de Finados, é sabido que, cada vez mais, diminui a visitação àqueles que se foram. Na maioria, restringe-se a esse dia. A construção de campos-santos com novos designers tem estimulado mais um pouco, visto que foge muito ao estilo das velhas catacumbas de antigos cemitérios. A conservação e os cuidados desses jazigos sempre foram responsabilidade de alguém da família. E isso tem minguado a tal ponto, que vemos vistosos mausoléus sem o menor trato, abandonados e, às vezes, sem o pagamento das anuidades à corporação responsável. Conheço pessoas que não veem a possibilidade de ter alguém que zele por seus restos quando de sua ida. Compra-se o local do último descanso como um investimento, dado o alto valor, e não se tem a certeza de quem ficará com o dever de mantê-lo. Isso tem levado as pessoas à opção do crematório e pedir para que sejam lançadas suas cinzas em locais que admiram e amam. Dileta amiga já me disse que seus restos serão levados para sua fazenda e deverão adubar uma linda árvore em frente à casa-grande. É exatamente o local em que gosta de ficar quando ali está. E tantas outras com seus gostos os mais exóticos possíveis. Disse-me um amigo que colega seu na profissão de piloto de aeronaves, sendo de família abastada, comprou um pequeno avião, tipo teco-teco, e nas horas de folga do trabalho, oferecia seus préstimos para quem quisesse fazer pequenas viagens ou sobrevoos em nossa cidade. Certo dia aparece uma senhora do Rio de Janeiro, relatando o último desejo de seu marido, também carioca. E como sempre procurava refúgio em nossa terra para seu merecido descanso, incumbiu sua esposa de proporcionar-lhe este sonho. Queria que suas cinzas fossem jogadas de avião na enseada da Pajuçara. Tudo acertado, chega a madame com a caixa contendo seu saudoso companheiro e tomam o caminho das nuvens. Disse o piloto que quando pediu a ela que abrisse a janelinha, não esperava que, moto-contínuo, destampasse a caixa ainda dentro do pequeno avião. Resultado: metade das cinzas tiveram o destino desejado. A outra metade foi consumida pela viúva e pelo comandante. Quando, em terra, olhou- -se ao espelho, até seus dentes eram cinza.