Opinião
O nove de novembro e o muro de Berlim
Johannes Linn é pesquisador sênior do programa de Economia Global e Desenvolvimento do Brookings Institute, testemunha viva do muro de Berlim, cuja queda ocorreu aos nove dias do mês de dezembro de 1989. Johhanes descreve que morava no lado ocidental quando o muro foi erguido dividindo a cidade em um lado capitalista-democrático e outro comunista. Conta que viver em Berlim ocidental era como em uma ilha de liberdade, bem-estar e isolamento, algo ao mesmo tempo emocionante e deprimente, e justifica: ?Uma excursão à meia-noite para o muro no fim de uma festa era o melhor jeito de ficar sóbrio novamente. Eu tinha amigos no lado oriental e podia visitá-los, mas tinha de dizer adeus sabendo que eles nunca poderiam me seguir até o lado ocidental sem arriscar a vida?. Ao fim da Segunda Guerra Mundial Berlim estava ocupada pelos Exércitos Aliados: a URSS no lado oriental da cidade e os demais aliados na parte ocidental. Inicialmente as pessoas podiam transitar de um lado para o outro, mas com o tempo, os que viviam no setor oriental migravam tanto para o lado ocidental democrático atraídos pela tecnologia, grande oferta de bens de consumo, como roupas, sapatos, comida e, principalmente, a liberdade, que as autoridades comunistas, com a indispensável tutela de Moscou, construíram o Muro em 1961, para evitar fugas. O Muro tinha 302 torres de vigilância com soldados fortemente armados, cercas eletrificadas, armadilhas e obstáculos poderosos. Mas a liberdade é um bem supremo e as fugas nunca cessaram. Os meios usados foram diversos: escalar muros, balões de ar, ultraleves, contudo, o meio mais utilizado era criar espaços apertadíssimos e dissimulados em automóveis; uma das últimas fugas foi a da adolescente de 17 anos que conseguiu ultrapassar a fronteira espremida entre duas pranchas de surf. Até a sua demolição ? executada pelos moradores do lado oriental com apoio dos do lado ocidental ? ocorreram 5.000 fugas,136 mortes e 200 feridos graves. Os protestos que emergiram em toda a Alemanha Oriental e levaram 500 mil pessoas, principalmente em Leipzig e em Berlim oriental, fizeram com que o PC defenestrasse seu secretário-geral, Erich Honecker, que queria reprimir com violência as multidões, substituindo-o por lideranças menos radicais que mesmo acenando com abrandamento das restrições e abertura gradual de fronteiras (sempre com a indispensável tutela de Gorbatchov) não conseguiram conter as aspirações por liberdade e crescimento econômico que o bloco comunista jamais lhes proporcionou. A queda do muro de Berlim não foi um fato isolado, foi precedida por incontáveis e insuperáveis problemas na economia e nos direitos humanos na Cortina de Ferro. O regime comunista deixou como legado a China, um modelo híbrido de comunismo para a imensa maioria da população e de capitalismo para um pequeno grupo de privilegiados. Cuba e a Coreia do Norte sobrevivem com regimes autoritários economicamente falidos. Na atrasada América Latina de todas as bizarrices, tenta ressurgir sob a forma de um populismo irresponsável, que já arrasou as economias brasileiras e venezuelanas, além de incitar um ambiente de conflagração e ódio entre as populações, e a submissão das instituições do Estado.