Opinião
Pontes e viadutos, travessias poéticas
Inúmeras vezes, meu pensamento já se posicionou, ao lado de fenômenos admiráveis que envolvessem a inspiração divina, chamados pontes e viadutos, sendo planejados mundialmente, por especialistas em edificações. Repousando sobre as correntezas ou avenidas, esses blocos de concreto, cruzam de uma margem para a outra, facilitando o percurso de pedestres, animais e veículos. Desde a minha infância e adolescência na cidade de Viçosa-AL, aprendi a admirar aquela ponte que ligava o centro da cidade à Rua Vigário Silva (Rua Nova), onde morávamos, sem ao menos compreender o sentido verdadeiro e poético das suas utilidades. Sempre que havia oportunidade, contentava-me por cruzar os seus caminhos, e debruçar-me no parapeito que a contornava de ambos os lados, avistar o percurso das águas e, às vezes, alguns cardumes atrevidos, piabas salientes, temendo as redes dos pescadores. Residíamos no casarão que pertencera aos meus avós paternos, verdadeira relíquia e que nosso pai foi reformando à medida que a prole aumentava. Ali, estão arquivadas parte da história de uma família feliz. Nosso avô, Manoel Tenório, cedeu-a a papai, indo residir em Santana do Ipanema, pouco depois do falecimento de nossa avó Belizia. O Rio Paraíba, provocava as minhas inspirações, ao ponto de lubrificar os meus sonhos, encontrar motivos para rascunhar versos e poemas nas imagens que se refletiam nas águas mansas e límpidas nas noites de lua cheia. Inúmeras vezes fui às escondidas desfilar de uma extremidade à outra daquele imenso passeio de cimento armado, sentindo-me altaneira, verdadeira princesa sem coroa e sem manto. Arquitetava ideias, querendo até levá-las ao gabinete do prefeito, como alfabetizar as crianças, colocando letras e sílabas em cada pilastra de sustentação. Tudo o que poderia haver de melhoras, imaginava para aquele monumento. Jamais, qualquer modificação que a pudesse diferenciar daquela que a minha imaginação fotografara. Um a um, meus irmãos e eu fomos nos ausentando da Viçosa querida, da Capelinha de São José, construída por papai, vizinha a nossa casa, do quintal enorme onde os sapos coaxavam a noite inteira nos barreiros que se posicionavam aqui e acolá, do Rio Paraíba, da ponte, da Igreja Matriz do Senhor do Bomfim e do Rosário, do Hospital Nossa Senhora da Conceição, que cerrou injustamente as suas portas, das belezas que a Princesa das Matas nos favorecia. Prossigo a minha caminhada, contemplando aqui e além, pontes e viadutos modernos, sofisticados, iluminados por lâmpadas de claridade intensa, espalhados por vias reais e imaginárias, mas todos tiveram origem naquelas pequeninas, estreitas e simples. Há sempre motivos para custear uma saudade imorredoura, escrever um poema ou uma crônica, ao aproximar-me de reminiscências reais e fictícias que margeiam a minha vida! A primeira e inesquecível que ornamentou as minhas fantasias de criança, transportarei pelo futuro afora e jamais será destruída ? a ponte da minha infância.