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Opinião

Entre bichos e pessoas

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Menino do interior, fui criado em meio aos animais que passeavam soltos pelas ruas de Murici. E não eram somente cães e gatos: vacas, carneiros, porcos, galinhas, patos e guinés também perambulavam pela cidade, pastando, fuçando e ciscando sem que ninguém lhes importunasse a vidinha mansa e tranquila. Nossas mães não tinham a psicose de higiene da atualidade, e nós brincávamos descalços na mesma areia em que os bichos urinavam e defecavam; que eu saiba, ninguém morreu por causa disso. Nos quintais havia lama, e no tempo de chuva as aves de criação entravam casa adentro, marcando sofás e camas com os seus pés sujos e espalhando penas molhadas por todos os cômodos, fazendo a alegria das crianças que, em algazarra, punham-se a tangê-las para o lado de fora. Os cachorros não tinham raça nem pedigree. Eram vira-latas do rabo fino, amarrados por pedaços de corda a uma estaca qualquer, quando não estavam acompanhando o dono em seu ofício ou no percurso diário para o trabalho. Poucos eram bravos como o Tupã de dona Judith Alcântara, que me deu muitas carreiras e foi o responsável pela cicatriz que até hoje eu carrego no queixo, fruto de uma queda que levei tentando fugir de uma mordida sua. A maioria era mansa e bonachona, entretida com um osso achado no lixo ou madornando à sombra das árvores frondosas que ornamentavam as calçadas. Uns entravam na igreja matriz, à hora da missa dominical, e ficam esparramados perto do altar, curtindo o frio do piso de mosaico até que a celebração terminasse; outros rondavam o mercado de carne no sábado à tarde, esperando os restos que as fateiras lhes lançariam após a limpeza das tripas do boi. As nossas avós geralmente gostavam de gatos, felinos gordos que punham fim aos ratos de toda a vizinhança e desfilavam pelos muros, altaneiros e independentes, vez por outra surrupiando uma espinha de peixe no lixo dos quintais. Bichos e pessoas conviviam entre si, inquilinos comuns do mesmo espaço público e privado, numa troca de afeto que trazia bem-estar para ambas as partes. Sem ração industrializada, os primeiros se alimentavam dos restos de comida dos segundos e bebiam água da torneira em latas de goiabada enferrujadas, dormiam sem colchão nem cobertor e eram vacinados apenas quando havia alguma campanha do governo, mas ainda assim possuíam uma saúde de ferro, à exceção de uns poucos carrapatos e alguma rabugem. Nada disso, porém, impedia que dessem, um ao outro, o mais sincero dos afetos, nem que sentissem no fundo do coração a importância que tinha aquela companhia benfazeja.

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