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Opinião

Realidade incômoda

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Ontem, em todo o País, celebrou-se o Dia da Consciência Negra, referência a um personagem de grande relevância na história brasileira: Zumbi dos Palmares. Segundo historiadores, foi nessa data que morreu o último líder do maior dos quilombos do período colonial, localizado onde hoje está o município de União dos Palmares. A criação do Dia da Consciência Negra no Brasil ? instituído oficialmente em 2011 ? é vista como uma forma de promover a conscientização e a reflexão a respeito da relevância da cultura e do povo africano na formação de nossa própria cultura. Também é um momento de refletir sobre o racismo que teima em sobreviver na sociedade brasileira. Leis antidiscriminação racial existem no Brasil desde a década de 1950, e o racismo foi transformado em crime inafiançável com a Constituição de 1988. A realidade mostra, entretanto, que a lei é insuficiente para mudar as estruturas sociais e econômicas que alimentam essa prática nefasta. Para isso, basta conferir os dados do IBGE relativos à pobreza, ao desemprego, ao analfabetismo e à violência. Jovens negros continuam sendo as maiores vítimas da violência nas grandes cidades. O número de mortes de jovens negros no Brasil é maior do que em regiões em guerra. São 70 mil por ano no País, número quase seis vezes maior do que as perdas na Faixa de Gaza. O desemprego entre negros é 50% maior do que entre a população branca ? que têm expectativa de vida seis anos maior do que os afrodescendentes. A população negra tem 1,6 ano de estudo a menos que a branca; representa 65,1% das vítimas de homicídios; e sustenta taxa de mortalidade infantil 60% maior que a da população branca. O ideal seria que não fosse necessário criar um dia para trazer essas questões à tona, nem adotar sistema de cotas raciais para facilitar o acesso de estudantes afrodescendentes ao ensino superior. Entretanto, não há dúvida que o País ainda tem uma dívida histórica com a população negra e está longe de garantir a todos o direito a uma vida digna, independentemente de cor, etnia, religião, orientação sexual e outras diferenças. Enquanto isso não ocorre, é preciso ficar repisando essa verdade incômoda.

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