Opinião
Juventude da alma
Como seria bom se pudéssemos nascer todas as manhãs e, como o sol, brilhar sempre, somente arrefecendo nossa influência em dias de muita chuva, quando as nuvens aparecem nublando os céus. O homem perde o apetite de viver, é verdade, se suas paixões e anseios são saciados. O mais importante, contudo, é quando aceita o passar dos anos, encontrando forças para adequar sua presença à nova realidade vivida, usando a experiência adquirida através dos tempos para forjar novas lideranças, até no âmbito familiar. Ao longo da existência convivi com cidadãos de pouca idade, embora possuidores de pensamentos e pontos de vista tão superados, quanto negativos. Tive, porém, a alegria de me ombrear com companheiros, nascidos no início do século passado, e exalando altruístico otimismo. São dois extremos de uma mesma história. Os primeiros, estacionam, esperando a morte chegar, enquanto os últimos fazem história, sabendo serem sempre importantes para os sucessores. Certo poeta, um dia escreveu: ?As mulheres bonitas não aceitam envelhecer, da mesma forma que os artistas insistem em não sair de cena, embora já seja tempo... Ambos estão errados?. Confirmei tal verdade, dias atrás, lendo a biografia de Winston Churchill, talvez o maior britânico de todos os tempos. Primeiro Ministro em duas oportunidades, orador e estadista notável, embora, como ser humano, com o passar dos tempos colecionasse críticas às suas tomadas de decisões. Às vésperas de seu octogésimo aniversário a realeza resolveu oferecer-lhe uma grande festa e, de presente, uma tela com sua imagem, retratada por Graham Sutherland, um dos ?magos do pincel? naquele país. Em data e hora marcados, com o homenageado à sua frente, o artista o fotografou, registrando várias posições de sua silhueta, em papel formato A4. O produto final, a ser concebido em estúdio, seria surpresa para o agraciado. No dia da solenidade, grandes autoridades do mundo estavam presentes ao salão principal do Parlamento Inglês. Quando houve o descerramento do quadro, todos aplaudiram a perfeição. Churchill, contudo, nem ao menos sorriu... Dia seguinte o pintor foi convocado ao gabinete do Primeiro Ministro que, indignado, questionou-o sobre o porquê de havê-lo desenhado sentado, mais parecendo estar a defecar, e não de pé, com semblante jovial, imponente e dinâmico. O autor respondeu: ?Ministro, o senhor continua lúcido e brilhante, mas, não esqueça, ser esta uma figura, retratando um homem de oitenta anos... Envelhecer é cruel... mas, se quer polemizar, não o faça comigo e, sim, com sua própria cegueira?. Depois deste diálogo, o grande inglês se convenceu: não mais deveria insistir por continuar tendo a Inglaterra como sua. Soube permanecer resplandecente, embora sem ocupar cargos de mando, como ocorrera durante cinquenta e quatro anos de sua vida. Que bom se Churchill tivesse feito Escola... O grande líder viveu ainda mais uma década, escutado e respeitado por todos... E, o mais importante, viu seu país permanecer imponente.