Opinião
Uma história de vida
Voando de Maceió para São Paulo, rumo à África do Sul, sentei-me ao lado de uma simpática senhora. Cumprimentei-a e comecei a ler. Quando a tripulação anunciou e começou a atender o serviço de bordo ? agora pago ? ela pediu um sanduíche e o pagou com um cartão de crédito. Dirigiu-se, então, a mim, solicitando-me ver no recibo o preço: ?Moça, a senhora pode me dizer quanto foi minha despesa, pois não sei ler.? ?Disponha: custou vinte reais? ? respondi. Exclamou: ?Virgem, muito caro!? Cancelou o refrigerante já pedido. Compreendi que o problema era financeiro. Parecia angustiada. Apresentava-se trêmula e chorosa. Percebi a necessidade de um diálogo. Interroguei-a: ?A senhora está bem?? Ela respondeu hesitante: ?Sim.? Segundos depois, desabafou: ?Não posso ir bem; perdi meu marido há quatro meses, e meu filho, há dois.? Completei: ?Sei o que é perder o marido, se o amamos.? Ela ouviu, não comentou o relacionamento, entretanto, continuou: ?Pior foi o meu filho com apenas 32 anos, também de câncer.? As lágrimas rolaram em sua face. Nunca havia andado de avião. Ônibus havia sido a escolha para as viagens anteriores. Senti sua angústia e insegurança. Fechei a revista e continuei o diálogo: tem parentes em São Paulo? Disse-me ela: ?Moro lá, desde que casei?. Pormenorizou: ?A duas horas do centro.? Precisava falar. Contou-me parte de sua vida: ?Estou voltando de Murici, onde residia até me casar. Meus pais já faleceram, mas os tios que me criaram continuam lá. Sei que não verei mais o meu tio Francisco, pois está muito mal, também com câncer.? Achei melhor não investigar detalhes sobre a doença, já que chorava. Não procurei saber o estado do tio, sobretudo, após ter vivido duas tragédias, com mesmo diagnóstico. Revelou-me ter conhecido seu esposo em sua cidade natal, quando ele veio de São Paulo passar a Semana Santa com a família. Casaram e fixaram residência em São Paulo. Narrou-me, ainda, alguns momentos melancólicos. Falou-me, com entusiasmo, da filha e dos três netos que moram próximo à sua residência. Ofereci-lhe um refrigerante, o que a deixou risonha. Acreditava ser paga a água, e parecia ter gasto o que dispunha, com a compra do sanduíche. Agradeceu-me com veemência. Confessou-me ter medo de avião. Tranquilizei-a. Disse-lhe voar sempre, mostrando-lhe com ênfase a segurança de uma aeronave. Notei que diminuiu a ansiedade. Voltei a ler. De repente, uma pequena turbulência a fez estremecer. Proferiu: ?O que é isso?? ?Estamos descendo; é sempre assim?, informei-lhe. Esboçou um sorriso gratificante. Quando a aeronave aterrissou, suspirou aliviada: ?Só Deus! Muito obrigada moça!? E assim, compartilhei mais uma história de vida!