Opinião
O Nome da Rosa
A imprensa divulgou, recentemente, a imagem de certa autoridade alagoana recebendo propina das mãos de um empresário, responsável por alimentar a máquina da corrupção, ainda tão praticada por alguns brasileiros, nos dias atuais. Eu acabara, então, de reler O Nome da Rosa, livro de Umberto Eco, retratando as investigações de sete crimes misteriosos cometidos em abadia medieval. Explicitava, ele, uma guerra ideológica existente entre frades franciscanos e dominicanos, em face de a igreja católica, em algumas situações, perseguir, julgar e punir pessoas acusadas de se desviarem das normas de conduta consideradas corretas. Segundo ali está dito, Papa Gregório IX, em 1231, preocupado com o crescimento de seitas religiosas, criou um órgão destinado a averiguar os suspeitos de práticas diferentes das reconhecidas como cristãs, chamando-o de Inquisição ou Santo Ofício, formado por tribunais nomeados pelo Sumo Pontífice, com o poder de aplicar penas variantes, desde a excomunhão até a cremação em fogueiras, armadas em espaços públicos. Em determinados ambientes, então, sorrir era considerado crime hediondo, enquanto roubar era inominável, merecendo sentença tão rígida a ponto de o pecador ter sua integridade física bastante deteriorada, antes de ser colocado para queimar na fogueira da purificação. O passar dos tempos, com os excessos ainda existentes, levou as sentenças a serem proferidas, não apenas com o intuito de preservar a força do catolicismo, mas objetivando aumentar o poder do julgador, além de retirar possíveis concorrentes de seu caminho. Quedo-me a pensar como seria se todos os nossos patrícios acostumados a ?ladroar?, travestidos de decentes, mas, acima de tudo, a mentir, espalhando falsidades, demagogias e hipocrisias, tivessem vivido naquele tempo. Nem com todas as florestas dizimadas, disporíamos de madeira suficiente para cremá-los. O medo, segundo sabemos, é muitas vezes um fator desestimulante para as pessoas deixarem de realizar uma série de coisas. Na época da Inquisição, muitos tinham pavor de praticar o erro receioso de serem taxados de bruxos, hereges e afins... Hoje, por excesso de confiança, os larápios de plantão, sem temor algum, preferem ser taxados de ?ladrão? embora correndo o risco de mofar na cadeia, a perderem a chance de sucatear os bens da educação, saúde, segurança, transportes ou do povo em geral. Imagino qual seria o sentimento de um cidadão como estes que proliferam em todos os quadrantes do País, se sua pena fosse a excomunhão. Certamente estariam rindo à toa, contanto mantivessem os bolsos cheios de dinheiro, do pré-sal, petróleo, merenda, remédios etc. Porque o sorriso da irresponsabilidade é peculiar à prisão domiciliar, algumas à beira-mar, embora usando tornozeleira eletrônica... Em O Nome da Rosa, o título do livro pouco alude à investigação. Trata-se de uma garota, pela qual, mesmo à distância, um dos personagens se apaixona, sem nunca saber como se chama... O mesmo acontece no presente texto: a única diferença é eu manter acesa a esperança de, um dia, ver os bandidos pagando por seus erros.