Opinião
Juventude ameaçada
Não é de hoje que se tem consciência de que a população negra no Brasil é a mais afetada pelos altos índices de violência e também a mais sujeita à violação de direitos. Estudos realizados por várias entidades mostram que os negros são maioria nos presídios e entre as vítimas de homicídios, ao mesmo tempo em que têm menos acesso à saúde e à educação e compõem o segmento mais pobre da população. O Atlas da Violência 2017, lançado em junho pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que, atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no País. Dados do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência, divulgados ontem pela Unesco em parceria com a Secretaria Nacional de Juventude e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, reforçam a constatação de que são os jovens de 15 a 29 anos, negros, moradores das periferias e das áreas metropolitanas dos grandes centros urbanos, as maiores vítimas da violência. Em Alagoas, os jovens negros têm 12,7 vezes mais risco de morrer. Com base na análise das ocorrências de 2015, os pesquisadores também concluíram que, em 26 das 27 unidades da federação, a taxa de homicídios é maior entre as mulheres negras nesta faixa etária do que entre as mulheres brancas. O quadro, sem dúvida, é dramático e se deve a vários elementos. Primeiramente, existe uma forte correlação entre raça e classe social no Brasil, de forma que a população negra viva em condições mais desfavoráveis, que explicam as maiores taxas de violência letal. Alguns especialistas chegam a falar da existência de um apartheid no Brasil, em referência ao regime de segregação racial que vigorou durante décadas na África do Sul. Em áreas pobres, as taxas de violência são muito maiores que nas áreas ricas. Há também evidências de que, além da questão de classe, há um viés racial. Esses níveis de violência, especialmente contra certas populações, não podem ser aceitos como naturais. Para superar essa situação, é necessário que o governo promova ações públicas coordenadas em áreas como educação, saúde, trabalho e geração de renda e oportunidades iguais para todos.