Opinião
O filho eterno
Meu amigo, já sessentão, há muitos anos não mantinha qualquer convivência com a mãe nonagenária e viúva. Desentendera-se com um irmão, julgou que a velha matriarca havia tomado partido pelo outro filho e simplesmente deixou de frequentar a casa materna, malgrado a reclamação que sempre lhe faziam os familiares mais próximos. ?Ela tem pouco tempo de vida?, diziam uns; ?só está esperando ver você para descansar?, asseveravam outros. Mas ele continuava irredutível na sua malcriação tardia, conforme me disse numa carona que eu lhe dei de Murici a Maceió, de modo que não pude me furtar a dar a minha opinião de órfão, um órfão tristonho que tudo daria para poder de novo aninhar-se no colo de dona Lenira, sentir o seu perfume e receber o seu abraço. O sujeito que, adulto embora, ainda pode correr para os braços da sua mãe, fugindo por um instante das dores do mundo, é dono do maior dos tesouros. Ali ele não precisa dizer coisa alguma, explicar nada, provar o que quer que seja para ninguém. Pode silenciar a voz e a alma, sentir-se verdadeiramente aconchegado, protegido, seguro. Não há compromissos a cumprir, problemas a resolver; ao lado da sua mãe qualquer homem é apenas um filho, de novo puro, para todo o sempre menino. A porta de uma mãe está sempre escancarada, o seu abraço nunca se afrouxa, a fonte do seu amor jamais se esgota ? antes se renova, límpida e perene, a cada vez que a buscam com sofreguidão. Saber que a mãe está ali, ao alcance de um telefonema ou de uma visita rápida, faz de todo cidadão um vivente preparado para enfrentar qualquer intempérie. Tenho a satisfação de conviver com idosas que possuem rebentos bem maduros, já cheios de netos, e vejo como elas se enchem de ternura ao mencionar o ?meu filho?, os olhos brilhando como se estivessem a ver um bebê cheirando a talco. Dias depois da conversa recebi o telefonema de uma filha desse meu amigo, agradecendo-me pela intervenção por ela considerada benfazeja. Havíamos proseado numa quinta-feira, e logo no sábado seguinte ele reuniu mulher e prole e foram todos à casa da mãe idosa, fazendo-lhe uma surpresa que levou todos às lágrimas. Trocaram beijos, abraços e sorrisos, rememoraram fatos da história familiar e as lembranças boas foram surgindo aos borbotões, tudo formando um caldeirão de afeto que pacificou os corações e fez ressurgir o prazer da partilha há tanto esquecido. A partir daí ele passou a visitá-la toda semana, religiosamente. Poucos meses depois a velha senhora morreu, serenamente, em paz. Na mesma paz que finalmente habitava o coração do filho que fizera as pazes consigo mesmo.