Opinião
Tenha dó, deputado!
Segunda-feira às 7h da manhã, o primeiro atendimento no ambulatório do SUS no hospital é para o esposo de uma paciente diagnosticada com um tumor de mama avançado. Submetida à cirurgia e quimioterapia na Instituição, a agressividade e o avanço da enfermidade ao fazer o diagnóstico fizeram com que a doença progredisse mesmo durante o curso dos tratamentos com as potentes drogas quimioterápicas. Como explicar ao esposo essa situação e o prognóstico fechado que infelicitava a sua esposa ainda é uma das situações mais delicadas e difíceis as quais os mais de 40 anos de exercício da oncologia não conseguiram amenizar: nem para mim e muito menos para os familiares. As tentativas de explicações esbarram em uns olhos incrédulos que me perscrutam profundamente e uma boca que me pergunta: ?Vou perder minha mulher? O que vou fazer agora? E os filhos? Ela só tem 38 anos!?. O resto do dia do ambulatório destinado aos pacientes do SUS não foi muito diferente: crianças que passaram meses perambulando pelos ambulatórios da Rede Básica com um tumor de cérebro, um tumor de abdome. Mulheres que sangram pelas genitais há anos, caroços de mama que duplicaram o volume dos seios: um mundo de sofrimento que perambula pelos desamparados ambulatórios da Rede Básica e só chegam aos hospitais em fases muito avançadas do câncer. Quem duvidar desse horror vá visitar qualquer posto de saúde ou hospital que lida com o SUS. Por sorte trabalho num hospital que com muito esforço e suor está estruturado e se mantém, contudo, na maioria faltam os insumos mais básicos. Esse caos generalizou-se, sem poupar nem São Paulo, o estado mais rico do Brasil, onde instituições filantrópicas tradicionais, como o Instituto Arnaldo Vieira de Carvalho (IAVC), a mais antiga instituição dedicada ao combate ao câncer em São Paulo, fechou a metade de seus leitos e reduziu as cirurgias de câncer em 50%. Existem 2 mil pacientes esperando por cirurgias eletivas em Alagoas. No Brasil é mais de 1 milhão na mesma crudelíssima condição. Com um detalhe perverso: essa é a parcela minoritária dos pacientes que já conseguiram uma consulta médica e fizeram seus exames. A quantidade daqueles necessitados que precisam desesperadamente pelo procedimento, mas ainda não foram atendidos nem cadastrados, é pelo menos 5 vezes maior. Como muitos outros brasileiros, morrerão sem atendimento médico. A principal razão é que o SUS não reajusta as suas tabelas há mais de 10 anos. É uma realidade de campo de extermínio nazista, o oposto daquela parcela minoritária constituída pelas corporações públicas que teve os seus já abastados salários, corrigidos regiamente anualmente, e que são atendidas no Sírio e Libanês. Deputado, quando Vossa Senhoria votar contra a Reforma da Previdência, estará não só mantendo esses privilégios vergonhosos dessa minoria em detrimento dessa grande maioria humilhada e maltratada, como condenado-a a permanecer sem saúde, sem segurança e sem educação. Deputado, se quiser defender os vergonhosos privilégios dessa minoria abastada, é uma opção pessoal, mas basta de embromação e mentiras! Basta de perversidade com o povo! Tenha dó, deputado!