Opinião
Engodos
Um projeto do deputado Rogério Marinho (PSDB-RN), que voltou a tramitar na Câmara, quer permitir o aumento do valor dos planos de saúde para pessoas com mais de 59 anos. A alegação é de que, ao completar 60 anos, o segurado tem um aumento tão grande que termina sendo expulso do plano, e que a proposta permitiria o escalonamento desse acréscimo. Parece uma boa ideia, mas se você ficou com uma pulga atrás da orelha, tem todos os motivos para isso. Quando a Anac decidiu que as companhias aéreas poderiam cobrar por qualquer bagagem despachada, imediatamente surgiram especialistas em livre mercado para explicar que, na verdade, isso iria reduzir o custo das viagens. De acordo com as pomposas teorias, se o avião gasta mais combustível para transportar sua mala, esse custo será repassado para o consumidor de alguma forma. O que os entendidos diziam é que, do jeito que estava, o acréscimo era dividido entre todos os viajantes. De lá para cá, o preço dos tickets subiu 6,8%, isso já considerando o preço para quem viaja sem mala nenhuma. Num congresso onde 29 deputados receberam mais de 50 milhões das empresas de planos de saúde para ajudar em suas campanhas, é difícil acreditar que um projeto que estava dormindo desde 2006 tenha sido colocado em pauta agora, em regime de urgência, justamente quando as operadoras enfrentam sua pior crise, por súbita preocupação dos parlamentares com o interesse popular. Ficar recebendo mensalidades de jovens saudáveis que praticamente não adoecem e expulsar os poucos idosos (hoje menos de 20% dos segurados) que geram a maior parte dos custos, sem dúvida é o sonho das empresas. Enquanto ter que depender do SUS na velhice é o maior dos pesadelos do cidadão de classe média. As demais propostas do projeto, como a diminuição das multas para os planos que recusarem atendimento e a flexibilização do rol mínimo de procedimentos (este tema vale um artigo em separado), não deixam dúvidas de quem foi que encomendou o texto. O engodo de escalonamento do aumento para idosos, contudo, era tão mal disfarçado que o ilustre deputado já retirou a proposta do relatório. Afirmou que conseguiu uma coisa rara, uma unanimidade. Segundo ele, tanto órgãos de defesa do consumidor quanto os planos de saúde foram contra a mudança. Uma proposta que supostamente seria boa para os dois lados, acabou sendo rejeitada por ambos. Realmente, o Brasil não é para amadores.