Opinião
55 anos de Medicina
Era a noite do dia 15 de dezembro de 1962. O céu estava belíssimo, coberto de estrelas. Eu, com meus 25 anos de idade exultava de alegria pela conquista de duas vitórias: o meu diploma de médico e a presença do meu grandioso pai, já desenganado pelos médicos há vários meses. Foi imensa a minha felicidade quando o vi junto a mim e senti o seu forte abraço. Notei seus olhos cheios de lágrimas como a dizer: ?Obrigado, Senhor, porque venci a morte até agora, para ver o meu adorado filho caçula médico?. Três meses depois ele partiu para sempre, deixando um imenso vazio em meu coração e nos de todos os membros da família. 55 anos de formado! Como o tempo passou! Éramos 14 os graduandos de medicina daquele ano. Todos muito estudiosos, unidos e apaixonados pela profissão. Eram eles: Aldo Molina, Antônio Dantas Lima, Everaldo Lemos, Helenilda Veloso Pimentel, Ivanise Maciel Ribeiro, José Cândido de Almeida Vieira, Maria Francisca de Almeida Vieira, Mário Alves de Sousa, Marisa Ferreira Marinho, Milton Hênio Neto de Gouvêa, Nehemias Rodrigues de Alencar, Roberto Maia Mendonça, Sofia Marinho Lopes de Farias e Tácito Augusto Medeiros. Infelizmente, José Cândido, Nehemias Rodrigues e Roberto Mendonça nos deixaram precocemente ao longo do caminho, ficando um imenso vazio em nossos corações. Eles três foram exemplos singulares de paixão pela profissão médica. Que eles estejam em paz, ao lado do Senhor, e constantemente dentro das nossas recordações. E nós, que ficamos, acabamos de completar 55 anos de formados, agradecendo todos os dias ao Cristo, que nos tem ajudado no cumprimento de nossa querida profissão, para, já no entardecer da vida, conseguirmos ajudar aos que sofrem. Pelos caminhos do tempo onde me gastei, fui deixando pedaços da minha vida; vi choros, gemidos, lágrimas, mas também vi sorrisos de crianças voltando à vida e milhões de bracinhos cheios de encanto que me envolveram e ainda hoje me envolvem. Apesar do tempo, a alegria de conviver com a criançada é tão forte que eu sinto como se estivesse começando. Lembro-me com saudade e emoção dos meus dedicados professores que examinavam com paciência e precisão todos os seus pacientes. Na pessoa do meu inesquecível mestre e amigo, Dr. Ib Gato Falcão, eu homenageio a todos eles. Hoje tudo mudou no campo da medicina. A população cresceu demais e o médico tem sofrido muito com a desorganização da saúde brasileira. Apesar de toda a tecnologia, o médico, somente o médico, pode compreender a sua grande missão e saber que existe um remédio que não se vende em nenhuma farmácia: a sua palavra. Feliz a geração como a nossa, que pôde viver do sentido da amizade e do benquerer. Inesquecíveis bons tempos! Construímos nossa família que nos deu apoio e ânimo e muito nos ajudou a retirar as pedras do caminho. No entardecer da vida, eu e meus colegas médicos, afetuosos amigos, ao completarmos 55 anos de formados e plenamente realizados em nossa profissão, só podemos dizer: Obrigado, Senhor!