Opinião
Abismo social
Dados do IBGE divulgados na sexta-feira, 15, mostram que cerca de 50 milhões de brasileiros, o equivalente a 25,4% da população, vivem na linha de pobreza e têm renda familiar equivalente a R$ 387,07 ? ou US$ 5,5 por dia, valor adotado pelo Banco Mundial para definir se uma pessoa é pobre. Após o início da crise econômica no País, 8,6 milhões de brasileiros a mais passaram a viver com menos de um quarto do salário mínimo por mês ? o equivalente a R$ 220. Além disso, 24,8 milhões de brasileiros viviam na miséria em 2016, 53% a mais que em 2014. Os números reforçam a constatação histórica de que o Brasil é um país de alta desigualdade de renda, inclusive quando comparado a outros países da América Latina, região do planeta onde a desigualdade é mais pronunciada. Ressalte-se que a desigualdade de renda é apenas um aspecto da desigualdade. Na prática, direitos básicos previstos na Constituição ? educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância ? se tornaram privilégios de uma minoria da população. É bom lembrar que, a partir da década passada, apesar dos problemas históricos, o Brasil vinha avançando na área social. De acordo com um levantamento do Ipea, em 2012 o número de pessoas que haviam abandonado a pobreza ultrapassou os 3,5 milhões graças a programas de transferência de renda, em especial ao Bolsa Família, e ao aumento do emprego e da renda. Em 2013, o Brasil era o 13º país que mais investia no combate à pobreza no mundo, em um ranking composto por 126 países em desenvolvimento, e servia de modelo para outras nações. Entretanto, a tendência à redução da pobreza vivida entre 2004 e 2014 se reverteu, nos últimos dois anos, devido à recessão econômica, alimentada em parte pela crise política, que resultou no afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Os cortes nos programas sociais implementados pelo governo Temer alargaram o fosso da desigualdade. Enquanto isso, a sociedade vê com desconfiança as reformas defendidas pelo governo. Agora a economia começa a dar sinais mais consistentes de recuperação, mas não será fácil, em curto ou médio prazos, retomar pelo menos os índices anteriores à crise. O País ainda tem um longo caminho até que a desigualdade social chegue a níveis mais aceitáveis.