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Opinião

Celso Brandão e a misteriosa Ilha do Ferro

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O tempo chega a ser cruel quando ri de nós e com frequência nos deixar à deriva, à mercê da memória. Tentamos nos lembrar, mas ele, o tempo, se distancia soberbo. É algo tão recente. No adejar curto da vida e não alcançamos por um instante e ficamos reticentes, sem palavras, tentando iludir a quem? A nós mesmos ou a outrem. Encontramo-nos, eu e Celso Brandão, na escadaria frente ao Palácio do Comércio, onde passo meus dias. Vinha buscar duas obras suas da última coletiva que participou. Parei, enquanto um interstício silenciou meus lábios. Como é o nome dele? Perguntei a mim mesmo por alguns instantes e não encontrei resposta. Tratei então de falar de seu último livro lançado recente sobre a Ilha do Ferro. Ele então expressou a vontade de oferecer-me um exemplar. Foi aí que eu vi que ele também não conseguia lembrar meu nome. Ri e disse. Depois, como o livro estava no carro, sugeri que deixasse com a pessoa com quem iria receber suas obras. Completei, alertando para a escadaria que para a minha visão é um pouco traiçoeira. Foi quando compartilhamos nossa idade e rimos então do tempo. Há quanto nos conhecemos..? Sobre o livro, uma surpresa esperada como qualquer coisa vinda de seu olhar. Aquela profunda observação material do objeto, desnudo de sua essência e transformado em arte com o mesmo rigor das lentes, na sua irreparável vigília até a completa materialização da luz e da sombra em fotografia. A coletânea de imagens com toda a crueza agreste da paisagem e de seu povo, nada perde do romantismo simbiótico. O conjunto é inseparável. Uma obra que se completa no manejar do claro e escuro numa atmosfera silenciosa e quase respirável. A Ilha do Ferro é um mistério, um compósito de elementos que se fundem numa ordem atemporal. Nem é hoje, nem ontem e nem será amanhã, simplesmente porque o tempo irrompeu a sua dinâmica oracular e se precipitou no abismo de uma outra essência, talvez de um outro universo. Depois, não é só a serenidade que resta no silêncio nostálgico, é o próprio diapasão de sons infinitos gritantes de uma noite vazia, de uma estrada sem fim. Por isso, cada imagem é enfim um poema recitado sobre a paisagem sanfranciscana, que só mesmo o Celso pode alcançar com tanta nitidez. Um presente para guardar e continuar vendo por muito tempo, trazendo à memória de onde viemos e o que somos. Que sejamos a areia desta terra árida de sol escaldante à sombra da braúna. Que adormeçamos nas noites arejadas deste sertão de todos nós.

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